1 Chegou ao Desportivo das Aves na época de 2001/02; o treinador não reagiu com entusiasmo ao reforço vindo do Bessa e, ao fim de poucas semanas de trabalho, referia-se a ele, sem grande esperança, como “o lingrinhas que o Boavista nos emprestou”. Algumas jornadas mais tarde, as coisas tinham evoluído: “O miúdo é mais de meia equipa.” Carlos Rexach, velha glória do Barcelona e elemento da equipa técnica de Johan Cruijff, dizia sobre Eusébio, o médio discreto do Dream Team: “Não cabeceia, não dribla, não é rápido nem forte, mas a jogar é um fenómeno.” Raul Meireles também não seduz automaticamente e só vence a dúvida por insistência, ao fim de meses seguidos jogando ao mais alto nível: não é alto, não é pesado, nem exuberante, mas quando entra em campo é uma fera.
2 Tem visão, sentido posicional, tempo de entrada aos lances, astúcia na utilização do corpo e técnica evoluída. Não é só o funcionário cumpridor que assume a segunda marcação, zela pela segurança da casa, trata dos equilíbrios e intercepta linhas de passe; é um quadro superior que desempenha várias funções por todo o campo, nem todas dependentes do guião definido. O passe curto é ofensivo; a condução é primorosa (dá, acompanha, vai buscar à frente…) e o perigo aumenta porque pega cada vez melhor na bola, parada ou em movimento – é um dos marcadores oficiais de cantos e livres laterais do FC Porto. Empurrado pela confiança de Co Adriaanse, aperfeiçoou o tiro com o pé direito (golo ao Marítimo, para a Liga) e a felicidade é tanta que até já marca de cabeça, com requintes de ponta-de-lança (golo ao V. Setúbal).
3 Numa equipa que monopoliza a posse da bola e a faz girar com velocidade cada vez maior entre os seus elementos, Meireles está transformado na autoridade que, ao mesmo tempo, orienta a estrutura (no seu jogo posicional não há debilidades) e dá sentido à geometria da aproximação ao golo (colabora com bons argumentos no carrossel atacante). As suas lições de precisão ao serviço de uma ideia demasiado atrevida, e cuja consistência está ainda por demonstrar, conferem-lhe, a par de Lucho González, a importância de bússola e termómetro das excursões, nem sempre bem organizadas, à baliza adversária – orienta o caminho, relembra o destino e anuncia as condições climatéricas para lá chegar. Poucos aplicam com tanta eficácia as competências que possuem.
4 Raul Meireles não tem vocação para o adorno e desconhece manuais de etiqueta; é frio, silencioso e não tem jeito nem feitio para seguir padrões plásticos exigentes; valoriza a essência colectiva do futebol, conhece todas as regras básicas do funcionamento de uma equipa, mas também dispõe de armas individuais que ajudam a resolver situações na área adversária – com as costas cobertas por Paulo Assunção é ainda mais influente nesse capítulo. Por ser um jogador de hábitos, sabe agir em qualquer zona do terreno; por solidariedade, está sempre disponível para receber a bola ou sacrificar-se pela sua recuperação; por inteligência, interpreta perfeitamente o estilo ousado do FC Porto. Raul Meireles é o médio-centro que joga com uma enciclopédia nos pés e está a consolidar-se como pedra preciosa do futebol português. É fundamental que não se perca pelo caminho.
Flanco direito
UM JOGADOR DE REFERÊNCIA. Em vez de chorar a saída do Chelsea aproveitou a bênção de ir para o Lyon, uma das melhores e menos reconhecidas equipas da Europa; quando muitos admitiam que estava a dar um passo atrás na carreira, deu três em frente e abriu novos horizontes para ele e não só. Tiago está a tornar-se um jogador de referência na sua função e é dos poucos portugueses no estrangeiro que progrediram de uma época para a outra.
FESTIVAL NO RESTELO. Silas reencontrou-se com a inspiração e despejou o saco de argumentos técnicos frente ao Sp. Braga. Como a equipa deu critério colectivo às acções da sua máxima referência criativa, o Belenenses fez, muito provavelmente, a melhor exibição da época – José Pedro, Pelé, Rolando, Meyong e Ruben Amorim em grande plano. Foi de tal maneira que, no fim, apetece mesmo perguntar se eles, jogadores, não têm vergonha do lugar que ocupam na tabela.
UMA VIAGEM AO PASSADO. Luís Figo é, hoje em dia, um maestro genial exilado junto à linha, de onde comanda as operações do Inter de Milão. Frente ao Ajax foi ainda mais longe na influência e efectuou brilhante viagem ao passado: fintou, cruzou, acelerou, travou e explodiu em sucessivas aventuras que lhe permitiram resumir em hora e meia a exuberância que lhe confere o estatuto de melhor jogador português desde Eusébio – Fernando Albino de Sousa Chalana que me perdoe, mas contra factos não há argumentos.
O aliado da bandeirinha
Tem sido excessiva a intervenção dos assistentes em lances nos quais não se devem intrometer. Se o árbitro está a dois metros de um choque no qual, seguindo o critério largo, não assinala falta, que direito tem o assistente de, por vezes mais longe, levantar a bandeirola a um estádio inteiro e obrigá-lo a apitar o que não quer? E sabem por que motivo o líder segue todas as indicações? Porque já lhe basta a hostilidade de público, jogadores e bancos de suplentes para ir ainda assumir conflitos públicos com um dos seus poucos aliados em campo.