Passa o tempo e há hábitos que persistem. Escrevinhar equipas do Glorioso em pedaços de papel: o onze da semana; o onze ideal; a equipa de sonho. Qualquer pretexto serve. Levo anos disto. Cadernos da escola repletos, mensagens trocadas com amigos. Jogadores alinhados, com setas a indicar as movimentações – o médio-direito fecha por dentro, os avançados defendem horizontalmente, o extremo-esquerdo procura zonas exteriores. A vida pode bem ser a continuação do futebol por outros meios.
Se assim é, o que nos resta fazer quando não estamos a ver futebol? Escrevinhar equipas de sonho e... jogar matraquilhos. Aproximações possíveis ao prolongamento do jogo, mas também superações nostálgicas e materiais da ausência de futebol jogado.
Num notável filme de animação (“Os matraquilhos”), o realizador argentino Juan José Campanella, vencedor do Óscar para melhor filme estrangeiro com “O Segredos dos Seus Olhos”, adepto do Racing Club, concedeu finalmente vida aos rapazes de ferro, libertando-os das amarras do campo fechado.
A metáfora é exata e percorre o caminho iniciado por um adolescente galego, Alejandro “Finisterre”, em plena Guerra Civil de Espanha. Ferido e hospitalizado, imaginou uma forma de tornar possível continuar a jogar futebol, mesmo não podendo. Assim nasceram os matraquilhos como os conhecemos: jogadores de ferro (e não o sucedâneo de plástico rígido que impera em muitos países), campos que com o tempo ganham lastro pegajoso e bolas cheias de lanhos, conquistados à custa de ruidosos ressaltos.
A palavra a Amadeu, protagonista do filme, um miúdo com um talento sem paralelo para jogar matrecos. Num momento em que todos os falhanços da sua vida parecem convergir e rodeado de jogadores de matrecos que entretanto ganharam vida, confessa, resignado: “Desperdicei a vida a jogar matraquilhos.” Num daqueles volte-faces só ao alcance dos filmes de animação, é-nos devolvida uma lição de vida: “Vamos buscar os rapazes de ferro. Tudo o resto vai e vem.” Tal e qual. Afinal: “O futebol é lindo. Sabes como é – tudo pode acontecer.”