1 - Diz-se que o tempo é fundamental em determinadas funções no futebol. A de guarda-redes talvez seja mesmo aquela em que o jogador mais beneficia com a idade para atingir o máximo potencial ao seu alcance, desde que esse processo para adquirir valores indispensáveis como experiência, ponderação e responsabilidade não deixe pelo caminho armas como coragem, reflexos e agilidade. O ponto de encontro entre todos os atributos acontece à volta dos 30 anos: quando a maioria entra em declínio, o guardião do templo costuma consolidar o esplendor que andou a construir desde os primeiros passos da carreira. Rui Patrício não foi perfeito na chegada à elite mas cresceu mais depressa e com melhores argumentos.
2 - Apesar das oscilações, em nenhum momento se desviou do inexorável destino que sempre foi o topo do Mundo, também porque a adolescência nunca o impulsionou para excentricidades inconvenientes. Rui Patrício resistiu à tentação juvenil de descarregar energia e tensões acumuladas pela inércia comum aos guarda-redes de grandes potências; jamais levou problemas por nervosismo a situações já de si delicadas para a comunidade; muito menos reclamou protagonismo nocivo em peças nas quais lhe estava consignado o papel de espectador sem direito à distração ou de felino obrigado a ser paciente antes de intervir. Cometeu erros por imprecisões mas não por desfasamentos emocionais. A ele não se aplica a ideia de Jorge Valdano: “A sobriedade, a frieza e a simplicidade são valores adultos a que um guarda-redes só chega depois de digerir o veneno da juventude.”
3 - De resto, Patrício já era especial quando custou pontos ao Sporting, altura em que foi indiferente ao fracasso com a mesma naturalidade com que hoje recusa o deslumbramento da glória. Beneficiou, então, de ter sido orientado por Paulo Bento, treinador que nele confiou contra ventos e marés; contra a extravagância desmiolada de Stojkovic, o autoproclamado melhor da Europa; contra as vozes e as penas de quem via mero capricho na decisão sustentada de lançar um jovem com todos os argumentos para triunfar ao mais alto nível. Meia dúzia de anos volvidos, é o paradigma do guarda-redes moderno, que comanda, coordena e orienta toda a ação defensiva; tem sentido tático perfeito, é admirado pelos companheiros e constitui uma espécie de Evereste para os adversários. Leva já impressionante coleção de milagres no currículo.
4 - Rui Patrício navega em esplendorosa maturidade que lhe depurou o instinto, a velocidade de ponta da inteligência com que antecipa grande parte das ocorrências na sua zona de jurisdição; aumentou também a precisão escrupulosa de gestos, decisões e movimentos; agregou ainda segurança, equilíbrio, liderança e responsabilidade a todas as intervenções, sinal de que também é feito de estudo e informação acumulada. Numa equipa em dificuldades, tem mostrado perfil para defender as costas de qualquer grande potência, qualidade rara que o torna ainda mais apetecível no mercado. Aos 24 anos, está a consolidar-se como um dos melhores guarda-redes mundiais. Portugal não tinha um senhor das balizas com esta dimensão desde Vítor Baía; o Sporting não formava fenómeno assim desde Vítor Damas. Vivemos, por tudo isso, um momento histórico.
Jesus teve razão antes do tempo
Em janeiro de 2011, Jorge Jesus apostou em Jardel para o lugar de David Luiz. O treinador viu no central brasileiro que jogava no Olhanense qualidade para triunfar no eixo da defesa encarnada. Como lhe sucede muitas vezes, JJ detetou talento num futebolista quando este ainda não o expressara e sofreu as consequências; voltou à carga meses depois e viu o alvo da sua aposta pessoal mostrar que dispõe de todos os atributos para jogar no Benfica. Ter razão antes do tempo, em determinadas circunstâncias, também pode significar não ter razão. Mesmo que, no fundo, ela esteja do seu lado.
Ninguém crê que foi por acaso
O espanhol tem um impressionante passado feito de agressões e demais grosserias que dificulta a aceitação de inocência no choque frontal com que atingiu o olho de Cristiano Ronaldo com o cotovelo direito e o deixou KO. Como disse um dia César Luis Menotti, quando um condutor vai para a estrada a mais de 200 km/h pode até não ter a intenção de matar seja quem for. Mas precisa de entender que, a essa velocidade, está a pôr em risco uma série de vidas. Nos campos como nas ruas, a imprudência pode conduzir à tragédia. Navarro acredita que foi sem querer. Mas creio que é só ele. Se for.
A obra-prima de Ibrahimovic
Só um génio pode assinar obra-prima como a de Ibrahimovic à Inglaterra. No mesmo lance, o sueco recuperou a equação dos lances eternos: surpresa mais perfeição igual a assombro. Sempre que mostra esse talento, mais estranho é o desencontro com a máquina de sonhos que era o Barcelona de Pep Guardiola. Percebe-se que a sua visão individualizada do jogo tenha chocado com o ideal coletivo do Barça, mas é quase criminoso que um avançado instintivo, potente, tecnicista, habilidoso, inteligente e goleador se tenha desfasado de uma das melhores equipas da história do futebol.