Os que escrevem e falam

A reacção de José Peseiro no final da partida com o Boavista é reveladora da sua personalidade. Depois da retumbante vitória por 6-1, perdeu o técnico sportinguista a grande oportunidade de mostrar a sua elevação e de responder com uma bofetada de luva branca a todas as críticas de que foi alvo – a maioria das quais, realce-se, com inteira razão. Mas não. Peseiro preferiu exibir, não a superioridade esperada perante tanta gente pouco conhecedora que ousou questionar a sua enorme sapiência, mas o desagrado pelo que foi escrito e falado. Isso demonstra como ainda tem muito que crescer para estar ao nível dos pergaminhos de um clube como o Sporting. Os leões não precisam de dirigentes, de treinadores ou de jogadores que se preocupem – e muito menos que se deixem afectar desta maneira – com o que escrevem ou dizem os jornalistas no exercício da sua missão. Quem serve o Sporting só deve ter um objectivo: ganhar os jogos, honrar a camisola, engrandecer ainda mais o emblema. José Peseiro devia aprender essa lição. Enquanto é tempo.

1. Pinilla

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Tenho para mim que o grande problema de Pinilla é não acreditar nas suas potencialidades e criar, desse modo, um "astral" tão baixo que a bola até tem complexos por girar. E depois, é claro que ou bate no guarda-redes ou acerta no poste ou vai ao lado ou segue, desesperada, rumo às nuvens e à evasão. A verdade é que já vimos o avançado-galã criar oportunidades de golo reveladoras de um talento nada desprezível e é dessa capacidade que Pinilla, ainda um jovem, deve partir para se tornar num ponta-de-lança temível. A hora é já. Ou ganha essa aposta e temos homem para altos voos, ou perde-se para a alta-roda e o seu destino serão os clubes da quarta linha. Maurício, a escolha é sua.

2. Quaresma

O jovem cigano está a dar uma resposta de alto nível a todos aqueles que, como eu, duvidavam que a promessa dos anos de verde-e-branco se viesse a concretizar. Para vencer o desafio, Ricardo Quaresma precisava mesmo do que conseguiu encontrar no FC Porto: um treinador que aposta nele e jogadores ao lado dos quais só um coxo ou um mentecapto é capaz de jogar mal. Repare-se no golo de antologia de Quaresma ao Gil Vicente: ele não arriscaria aquela jogada - em que pudemos vislumbrar uma pincelada do futebol de Cristiano Ronaldo - se actuasse numa equipa complexada, que jogasse sobre brasas ou em que não fosse permitido errar. Mais três pontos para PC!

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3. Jaime Pacheco

Longe vai o tempo em que o Boavista assustava os grandes, tanto pela consistência do seu futebol como pela dureza posta ao serviço da causa. A reconstrução da equipa campeã e que andou pela Europa a fazer pela vida e a vender cara a derrota não tem sido fácil e nem a aposta de João Loureiro - um treinador, um presidente - tem conseguido acabar com esta fase menos boa do clube do Bessa. É pena para o futebol português, que precisava de "outsider's" mais atrevidos e mais poderosos. O recente duelo dos líderes, o Benfica-V. Setúbal, acabou em "chapa 4". Agora, em Alvalade, foi "chapa 6". A propósito: como irá reagir, no Dragão, a pantera de Jaime Pacheco? Cuidado, Fernández!

4. Feridos no orgulho

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O que me apetece dizer é que a única injustiça do comentário de José Mourinho sobre a lentidão do meio-campo do Sporting foi a de se ter "esquecido" de Carlos Martins, sem dúvida o mais veloz e dinâmico centro-campista do plantel. Mas se até José Peseiro se "esqueceu" dele ao longo de tantas jornadas... Aliás, o técnico do Chelsea bem pode gabar-se de ter também contribuído para a copiosa derrota que os leões infligiram ao Boavista, já que o poder do seu discurso - que Record tem o privilégio de fazer chegar em primeira mão aos seus leitores - é tal que a crítica à falta de velocidade dos médios leoninos só pode ter tido os efeitos de uma bomba no fatalismo que se instalara em Alvalade. As palavras do treinador campeão europeu de clubes mexeram com o brio de profissionais que não tinham ainda encontrado a motivação suficiente para se lançarem nos braços do inconformismo e da inquietação. A "transformação" de Hugo Viana, por exemplo, foi completa, Custódio já está na forma da época anterior e Rogério, ao recuar para defesa, abriu caminho ao ambicioso e determinado Carlos Martins. Quanto a Rochemback, o mais "veloz" segundo Mourinho, pudemos ver como manteve o seu ritmo. E chega. Um talento como ele, joga bem até sentado.

5. Simão

SSS - São Simão Sabrosa. O Benfica bem pode adorar o seu verdadeiro menino de ouro - é ver, só nesta época, os jogos que resolveu e os pontinhos que, à sua conta, já ganhou para a equipa encarnada. É muita promessa, muito poder de fogo, muita dupla, muito ataque, mas depois vai-se a ver e quem é que está lá na hora da facturação? O Simãozinho, pois claro. O problema é que ele ainda não é capaz de fazer tudo, é um grande jogador, não é um deus. E tão humano é, que atravessa neste momento um período difícil da sua vida particular, pelo que daqui, desta discreta coluna de Record, lhe faço chegar uma palavra amiga de apoio e admiração. A vida continua e o futuro está aí, Simão.

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Porque será que Record erra tanto

Recebi há dias a carta de um leitor muito irritado pelo facto de o Record "errar muito, errar tanto que até o próprio jornal dá notícia dos seus erros!" Eu tenho pena de não ter começado a coleccionar, desde a minha chegada ao Record, algumas das mais espantosas cartas que vou recebendo, para um dia editar um livro que ficasse como demonstração do que o fanatismo e a opionite aguda levam as pessoas a escrever. É o delírio absoluto!

Neste caso dos erros, o Record tem a pretensão de ser tão bom ou tão mau como os outros. Mas ao contrário dos que tentam passar despercebidos, julgando-se acima de qualquer engano, o nosso jornal envergonha-se de ter errado, respeita quem o compra e dá a mão à palmatória, assumindo e reparando, na medida do possível, o lapso que cometeu. Estou certo que a imensa maioria dos nossos leitores apoia este sinal de realismo e humildade.

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