Cristiano Ronaldo foi condecorado. Os críticos (de Cavaco Silva) dizem: não foi uma condecoração, foi uma decoração. Para que o Presidente capitalize com a notoriedade do jogador. Será? Que seja: o homem merece. Ronaldo merece. É óbvio que merece. Um desportista também pode ser um génio – e Ronaldo é.
Um dos aspetos mais curiosos sobre Cristiano Ronaldo nesta sua segunda Bola de Ouro foi a narrativa de que o jogador português afinal não é (como Lionel Messi) um predestinado, mas um jogador que chegou onde chegou pelo trabalho, persistente e incansável, de todos os dias. O que é surpreendente aqui não é a explicação em si – é a novidade da explicação. Cristiano, diz-se agora, não nasceu com o rabo virado para a lua, foi tão persistente na sua labuta diária que virou a lua para – salvo seja – o seu rabo. Não é sorte, é trabalho.
A novidade da narrativa veio das lágrimas súbitas do jogador português na entrega da Bola de Ouro, que tanto irritou Michel Platini. Aqui para nós, é uma espécie de vingança fria, muito fria, servida trinta anos depois da exaltação do goleador francês que arrumou, num momento de fortuna, a Seleção comandada por um galáctico Chalana no Europeu de 1984. Mas tirando isso, não há mais que dizer que o nosso bom ganhar foi o mau perder francês. Monsieur Ribéry: cantas bem mas não me alegras. Ronaldo é incomparável.
O que é mais difícil de compreender é a súbita comoção com a minissaia de uma senhora na Presidência da República, na tarde de consagração de Ronaldo. Há mais de 50 anos que uma jovem, chamada Mary Quant, chocou o Mundo com tal ousadia. É estranho que debatamos tal minudência de análise mais ou menos machista. O talento de Ronaldo é de tal forma impressionante que não deveria ser menorizado nem que o Presidente Cavaco Silva aparecesse de calções de marinheiro a fazer de homem do leme. Por muito que vos custe, o melhor par de pernas naquela sala era mesmo o de Ronaldo. Quem se fixa na minissaia quando ao lado está um génio, está a fazer uma escolha. Estranha. Nem o Messi!