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Para que serve esta AG Extraordinária do Sport Lisboa e Benfica?

1. A Assembleia Geral Extraordinária prometida para 3 de Julho de 2021 serve, sobretudo, para apurar alguma verdade e responsabilidade sobre o que se passou no ato eleitoral de 28 de Outubro de 2020 e esclarecer a função do voto eletrónico enquanto instrumento de legitimação de escolhas no Sport Lisboa e Benfica.

2. Recuperando o contexto, na organização do último ato eleitoral, o presidente de Mesa em exercício (figura de péssima memória e que como tal deve ser recordado) declarou que os representantes das listas candidatas teriam acesso aos parâmetros de funcionamento do voto eletrónico. Obviamente, para poderem controlar a sua regularidade, o que se espera de um processo eleitoral transparente.

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Estas declarações revelaram-se "não sérias" mas somente a 72 horas do ato eleitoral, o que retirou oportunidade de reação antes da sua realização. Foi evidente a premeditação com que o Presidente da Mesa geriu o procedimento com o objetivo de manter inacessível aos demais candidatos o processamento dos dados eleitorais. Já Luis Filipe Vieira exercia e continua a exercer o poder de direção sobre a Secretaria-Geral do Clube e sobre os funcionários encarregues da operação do sistema.

O ato foi auditado uma entidade independente? Não.

As eleições tiveram uma participação massiva, com 38.102 sócios, alcançando-se um novo recorde de votantes na centenária história do Clube. Todavia, a contagem dos votos impressos, prometida pela Mesa da Assembleia Geral, que confirmaria, ou não, os resultados processados eletronicamente foi recusada pelo inesquecível Presidente de Mesa, a menos de 4 horas do encerramento do ato eleitoral; quando já seria possível, a quem opera o sistema, um conhecimento parcial sobre o resultado da votação.

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Para ilustrar a falta de credibilidade do processo foram retransmitidas vezes sem conta imagens do transporte das urnas de voto para local incerto, sem garantias de inviolabilidade do seu conteúdo e sob responsabilidade de "agentes" que declararam agir a mando do Benfica. Posteriormente, apurou-se que tal serviço foi prestado por uma empresa de segurança que colabora habitualmente com o futebol profissional e com a Benfica SAD. No limite foi o Conselho de Administração da Benfica SAD a definir o escrutínio das eleições do Sport Lisboa e Benfica.

Escusado será dizer que a intervenção destes "agentes" nunca esteve prevista ou foi divulgada aos candidatos. O procedimento para o qual todos estavam preparados era o da contagem nos locais de voto dos votos impressos emitidos ao longo do dia de votação.

Por coincidência, foram detetadas várias divergências entre números de votantes contabilizados nas secções de voto e os votantes registados eletronicamente.

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Tais divergências foram comunicadas à Mesa da Assembleia Geral e solicitados esclarecimentos. Nunca foram prestados.

Estes factos não são ficcionados. Aconteceram em Portugal, em várias localidades do País, entre Outubro e Novembro de 2021, perante uma ampla cobertura mediática.

3. Deixar o assunto como está, "entrelinhas", apenas confirmaria muito do que se pensa e diz sobre a forma como a sociedade portuguesa, no seu todo, tem lidado com valores fundacionais e "questões de Princípio".

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Mas preocupa-nos, sobretudo, o Sport Lisboa e Benfica e o impacto que uma postura de "quero, posso e mando", que organiza as eleições como uma formalidade de gestão corrente (com a participação especial dos sócios) pode causar no médio e longo prazo do associativismo benfiquista.

E é por isso que estas eleições têm de ser discutidas. Porque são invocadas para legitimar um poder que não foi devidamente escrutinado e que se afasta, progressivamente, dos valores históricos do Clube.

4. Após a divulgação dos resultados, Luis Filipe Vieira, já empossado como Presidente da Direção, disse: "… Somos mais fortes juntos. Somos mais fortes quando não nos dividimos. É um dos desafios mais importantes para os próximos quatro anos (…) Apesar das diferenças, a união foi o denominador comum nestes anos. Disse-o durante a campanha e repito-o hoje: a partir de agora não há vencedores nem vencidos, mas apenas benfiquistas que vão unir esforços para continuar a construir o futuro do clube…".

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Estas palavras não valem por si, valem pelos atos subsequentes.

A propósito, não tiveram força suficiente para evitar a renúncia ao exercício do cargo por parte de Rui Pereira, prestigiado Presidente da Mesa da Assembleia Geral, apenas 8 meses após a tomada de posse, que invocou falta de apoio da Direção para fazer cumprir a vontade dos sócios em reunir em Assembleia Geral Extraordinária.

5. Confronta-se, assim, a Direção com uma dúvida sobre a sua legitimidade que afeta não apenas a relação com uma parte significativa da massa associativa, como se registou na última votação do orçamento e plano (o voto de descontentamento ganhou inequivocamente nos segmentos de 1, 5 e 20 votos), mas que transvasa para a liderança da gestão desportiva que nas últimas épocas denotou falta de tudo um pouco: planeamento, união, compromisso com o Benfica, orientação estratégica e capacidade competitiva.

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6. Reconstruir a mística ganhadora do Sport Lisboa e Benfica, que "anda perdido", segundo a voz de liberdade de Paulo de Carvalho, pode e deve passar por uma prestação de contas, apuramento de responsabilidades e por uma garantia de que não voltaremos a assistir a um processo eleitoral tão mal organizado e suspeito.

Não tenhamos dúvidas, a falta de rigor, de lealdade, de transparência, de credibilidade, no mais importante ato do Clube fragiliza-o no seu todo e contamina-o, animicamente, em todas as suas atividades, com esporádicas exceções.

É por isso que uma assembleia geral extraordinária, neste contexto, deve ser um momento de viragem na relação entre órgãos sociais e sócios, e destes entre si, em prol de muito mais Benfica.

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É este o nosso contributo, centrado nas eleições, mas projetado para outro tipo de gestão do Benfica, lançando bases de confiança, sólidas, compreensíveis, aceitáveis, auditáveis, para traçar um futuro no qual a esmagadora maioria dos Benfiquistas se reveja. E do qual se orgulhe!

É para isto que serve esta Assembleia Geral. É o repto que gostávamos de ver compreendido.  

Lisboa, 17 de Junho de 2021.

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Autor: João Pinheiro (sócio n.º 8238 do Sport Lisboa e Benfica)

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