_

Opinião
Rui Dias Redator e repórter principal

Paulo Oliveira é o central do futuro

Foi o Milan de Sacchi, na segunda metade dos anos 80, quem forneceu os argumentos que faltavam à convicção de que a beleza no futebol não é um exclusivo dos artistas que tratam a bola por tu. O quarteto composto por Tassotti, Baresi, Costacurta e Maldini são representantes de um fenómeno coletivo que universalizou a verdade que também os defesas são capazes de expressar valores espontâneos agregados ao instinto e à intuição. Paulo Oliveira é a mais recente conquista para o grupo daqueles que, em busca da bola, conseguem ser tão brilhantes como os deuses que a tratam com esmero e a quem reservamos lugar no olimpo da paixão pelo jogo. Só uma elite é capaz de, face a adversários com soluções técnicas deslumbrantes, apresentar repertório com argumentos igualmente ricos para travá-los sem recorrer à falta, muito menos à grosseria que caracteriza boa parte dos defensores do templo.

Sendo ainda um jovem, sabe quase tudo sobre a articulação com os parceiros do meio onde vive e sobre a gestão dos duelos individuais – conhece de trás para a frente a cartilha de como deve posicionar-se e agir perante adversários rápidos, talentosos e que sejam uma coisa e outra. É muitas vezes cinematográfica a forma como vai medindo intenções, avanços e movimentação geral do portador da bola até agir sobre ele, desarmá-lo e dar seguimento ao jogo. Nesses lances de contacto é como o carteirista experiente em ação sobre vítimas inocentes. Tem tanta classe, é tão subtil e aproxima-se tanto da perfeição que os avançados, tal como sucede na vida real dos transportes públicos, só tarde percebem que já não têm nos pés o tesouro feito de couro que deviam guardar. Ao contrário de quem está constantemente obrigado a atos de heroísmo para retificar erros, Paulo Oliveira tem o condão de acertar quase tudo à primeira.

PUB

De resto, tem personalidade para travar o TGV quanto mais avançados maliciosos, enganadores e de instintos agressivos.

Por temperamento, nunca se resigna a desaires momentâneos, que interpreta como episódios transitórios para a vitória final. Paulo Oliveira está a construir-se como jogador à custa de argumentos que definem os grandes centrais, aqueles que acedem à história como parceiros dos maiores protagonistas: adivinha, antecipa e chega primeiro o que lhe dá vantagem se tiver de ir ao choque; quando os factos ocorrem, já está no local há centésimos de segundo – mas se, por qualquer motivo, se atrasa, recupera à custa de tremenda velocidade de deslocamento. É felino a reagir em espaços curtos (agilidade sublime) e imperial na gestão do território em campo aberto (inteligente e rápido). Está a meio da viagem que deve fará dele um herdeiro dileto de estrelas que trouxeram o futebol nacional ao topo do Mundo.

Paulo Oliveira está a evoluir para um extraordinário defesa-central, protagonista de evolução cujo destino, em breve, ninguém ousará discutir: será o expoente máximo da função na próxima década a nível nacional. Aos 23 anos conta, desde logo, com a vantagem da idade sobre Ricardo Carvalho (37 anos), Bruno Alves (33), Pepe (32) e José Fonte (31); mas não tarda juntará aos favores do tempo a qualidade que sustentou a aposta de um treinador com vistas largas, que lhe deu a titularidade numa grande equipa (Marco Silva), e a consolidação do talento superior orientada pelo saber enciclopédico de um mestre que melhora tudo em que põe as mãos (Jorge Jesus). Precisa agora de entender que este momento exuberante a todos os níveis não é de plenitude prematura mas um simples troço para consolidar a autoridade, a confiança e o prestígio sem os quais não tirará todo o proveito do potencial ilimitado que possui.

PUB

Gonçalo Guedes para dar a volta

Águia juntou três elementos (Semedo, Sílvio e Guedes) das camadas jovens

Rui Vitória deu o primeiro sinal de que o paradigma benfiquista de mais formação e menos investimento pode não ser uma utopia. No onze com o Sporting, lá estava Nelson Semedo – André Almeida de fora, Sílvio na esquerda, Eliseu no banco e Marçal nem isso. Mas a surpresa foi ter Gonçalo Guedes como arma para evitar a derrota e não apenas como decisão demagógica em defesa do Seixal. Alguma coisa mudou.

PUB

Jefferson entrou com o gás todo

O arranque leonino tem dado brilho a futebolistas vistos como discutíveis

Jefferson mantém o estilo e está a dar-lhe regularidade, consistência, intensidade e brilhantismo. Em jogadores tão vertiginosos, a intervenção do treinador deve incidir no estímulo à moderação. Jorge Jesus está a agir como pedagogo que confia no talento do aluno: não lhe cortou a liberdade, apenas exige que ele saiba usá-la. Pode ser uma solução definitiva onde, no passado, havia um eterno problema para resolver.

PUB

O que trouxe Pizzi ao Benfica

Quando teve a bola e deu coerência à circulação, o Benfica já estava a perder

Pizzi foi preterido a Fejsa e Samaris e o sistema tático oscilou entre o 4x3x3 e o 4x4x2. O principal problema da opção prendeu-se com a dificuldade em ter a bola e fazê-la circular. O Benfica só agitou o jogo pela ação dos dois extremos (Ola John e Gaitán) e pela movimentação de Jonas. Quando Pizzi entrou a equipa articulou lances pela zona central, feitos de passes curtos e progressão participada. Foi tarde de mais.

PUB

Por Rui Dias
Deixe o seu comentário
PUB
PUB