Assunto encerrado, diz o Sporting. Assim seja. Mas a crise de Natal entre Bruno de Carvalho e Marco Silva não deixou tudo igual. E desta vez as cicatrizes ficaram do lado do presidente. Esquecê-las-á?
Ainda hoje não é possível perceber as causas do que aconteceu. A equipa de futebol vinha fraquejando, sim, mas sem hecatombe. Por muito que custe a Bruno de Carvalho reconhecer, o Sporting não tem equipa para ser campeã nacional, a não ser em caso de superação coletiva milagrosa. Pode correr-se com um treinador por perder jogos a eito mas não faz sentido fazê-lo por falhar a dose de milagres.
Parece fazer mais sentido que tenha sido um choque de egos que produziu o desencontro. Marco Silva vinha fazendo declarações públicas que não eram "ámen" às decisões de Bruno de Carvalho. E embora tenha voz pianinho e corpo franzino, Marco Silva mostrou que não é mosca morta, sabe ser vespa. Quem manda na equipa de futebol? Marco Silva nunca cedeu: é ele.
O que esta crise mostrou foi que Bruno de Carvalho é menos hegemónico do que pensa e teve contra si uma força inesperada. Não me refiro à comunicação social, que claramente esteve do lado do treinador e com quem o presidente vai tendo uma relação cada vez mais difícil, em grande parte pela sua intolerância com jornalistas. Refiro-me aos sócios. Foi esmagador o apoio a Marco Silva durante o processo. Se as declarações de José Eduardo foram "testes de mercado", os testes mostraram que não se podia apear o treinador, muito menos invocando deslealdade. E assim, pela primeira vez, Bruno engoliu e recuou, conseguindo a paz.
Esperemos que Carvalho não seja vingativo, caso contrário é uma questão de tempo até que o caldo entorne outra vez. Se querem trabalhar juntos, os dois têm de baixar um pouco a garimpa. E delimitar o território. Porque o que interessa a ambos é ganhar.