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Este é um texto de esclarecimento sobre o que penso do papel de Pinto da Costa no FC Porto e no futebol português. Porque, depois de ter falado em “fim de regime” no Dragão, muitos outros já falaram de “fim de ciclo”, e apesar de se lhe atribuir o mesmo significado, são coisas (para mim) diferentes. Resumirei tudo em 20 pontos:
1. Pinto da Costa foi o mais brilhante dirigente desportivo que o futebol português conheceu.
2. Esse brilhantismo resultou de uma ideia primacial, “pedrotiana”: somos discriminados, somos vítimas – por causa de um centralismo exacerbado, por razões políticas e históricas –, somos Porto.
3. A estratégia de muitos anos, convictamente assumida, não instantânea, passou por um ataque organizado, metódico, persistentemente obsessivo a Lisboa e aos clubes de Lisboa (Benfica e Sporting).
4. Passou, também, por criar no Estádio das Antas um bastião de resistência e combate contra o centralismo.
5. Gerou-se então, no auge da afirmação do “pintismo”, um ambiente difícil, hostil e às vezes violento, a todos aqueles que não compareceram ou recusaram o alistamento.
6. Fê-lo com um “corpo de intervenção” específico, dando às claques força e prerrogativas que lhe garantiram segurança e reacções planeadas, de grande eficácia no terreno.
7. Pinto da Costa avançou e teve êxito porque, nos anos 80 e 90, fez a melhor leitura do país – assimétrico, com muitos contrastes entre o litoral e o interior e também entre o norte e o sul, cheio de medos e com uma abordagem à democracia plena de interrogações e partidariamente mal conduzida.
8. Cedo concluiu, poucos anos depois de ter colocado em marcha a estratégia de inflectir os poderes, que a oposição à sua “ideia totalitária” era fraca ou mesmo inexistente.
9. É bom ter a noção de que o país consentiu-lhe o avanço e esse é um mérito que lhe deve ser creditado.
10. Houve casos extremos de tentativa de copiar o modelo de liderança. Essas hesitações contribuíram decisivamente para a afirmação do “pintismo”.
11. Pinto da Costa operou uma revolução no FC Porto, mas percebeu que essa revolução só poderia ter êxito se fosse acompanhada por uma forte intervenção política.
12. Não foi por acaso que, à excepção de Rui Rio – que teve a coragem, a honestidade e a superioridade intelectual de nunca misturar futebol com política, algo muito difícil de se fazer –, Pinto da Costa revelou a capacidade de instrumentalizar a Câmara do Porto e muitos dos seus presidentes.
13. Não é por acaso que Fernando Gomes, ex-presidente da Câmara do Porto, assume hoje funções de administrador (cooptado) na SAD.
14. Não é por acaso que Luís Filipe Menezes, ex-presidente da Câmara de Gaia, cuja edilidade apresenta um nível de endividamento surreal, esteve e está nas suas graças.
15. O FC Porto, com Pinto da Costa, realizou com o Centro de Treinos do Olival, o melhor negócio que qualquer clube de futebol alguma vez poderia realizar.
16. Há pelo menos 20 anos que o “FC Porto de Pinto da Costa” está em velocidade de cruzeiro: é o clube português mais ganhador, no espaço nacional e internacional, desde a última década do século XX e no arranque do século XXI.
17. É nessa medida que entendo que, apesar dos avanços, a modernização do FC Porto choca com a estratégia de antanho.
18. Há muito que Pinto da Costa, sem perda de resultados, poderia ter ajustado o seu saber às novas realidades e aos novos tempos.
19. O FC Porto detém a hegemonia, mas o futebol – como indústria – necessita de outras fórmulas, de outros andamentos, de outras soluções.
20. O modelo de negócio tem de ser discutido. Entre todos. Com o FC Porto. Sem exclusões. As grandes figuras dos regimes têm sempre muitas dificuldades em se ajustar aos novos tempos, sentados em cima dos seus êxitos. Por isso, julgo que Pinto da Costa quererá preservar até ao fim as virtualidades do seu monolitismo.
Não ter imposto uma nova dinâmica há 5/10 anos criou uma sensação de “bem fazer” que gerou acomodações internas, guerrilhas, invejas, novo-riquismo e novos protagonismos.
O “regime” vai implodir (por dentro e por fora) porque não se fez a transição. O FC Porto conhecerá tempos difíceis? Talvez. Não tanto pelas manobras externas (que sempre existem e existirão), mas pela negação em preparar o futuro.
O futebol português precisa do FC Porto. Um FC Porto moderno e arejado, que saiba retirar aquilo que o “pintismo” lhe forneceu: uma liderança indiscutível.
Nota: Em vez de se discutirem propostas para a melhoria do futebol português, o foco está na destituição do presidente da Liga. A vingança em curso, o que significa não haver condições para que o presidente da Liga ou mesmo da FPF não sejam mais senão a extensão do poder dominante. Devidamente controlado por outros poderes. Lamentável e sintomático.
JARDIM DAS ESTRELAS
CR7 e Mou ****
Separam-se e foi o que fizeram de melhor: Cristiano Ronaldo e José Mourinho estão a viver, cada qual, momentos felizes. Era óbvio que a sua coexistência, em Madrid, estava a causar estragos, quiçá irreparáveis. O desanuviamento, na capital espanhola, é Real.
O CACTO
Inaceitável
Por que razão é que a FPF e a Liga não conseguem impor a sua autoridade, no cumprimento das regras mais básicas e dos regulamentos que os próprios clubes aprovam? Porque os clubes não aceitam nenhuma autoridade ou organismo que regule a sua própria actividade e, desse modo, querem ter à frente daquelas organizações figuras susceptíveis de serem instrumentalizadas. Nem o Estado consegue. É por isso que se assiste a uma permanente luta pelo poder, tudo em nome do controlo da Disciplina e da Arbitragem, os dois principais motores capazes de condicionar e adulterar a Verdade Desportiva.
Veja-se o que aconteceu, noutro plano, no final do FC Porto-Estoril: Polícia desautorizada, Comunicação Social reduzida ao papel de pé-de-microfone – a ideia de um totalitarismo musculado, em completa contramão com os mais elementares deveres de cidadania democrática, seja no Porto, em Lisboa ou em qualquer outro reduto.
Isto não é uma questão clubística; é uma questão de educação e de normal funcionamento das instituições.