Porcaria de vida

Escrever com o intuito de informar é algo que faço com uma regularidade quase diária há cerca de 18 anos. Pode mesmo dizer-se, porque é verdade, que ganho a vida a teclar em computadores. Antes, recordo-me agora, as teclas eram bem mais duras e estridentes, pois pertenciam às desactualizadas máquinas de escrever. Outros tempos...

Tenho bem presente na memória o primeiro texto que escrevi num jornal. Foi uma tortura. Para além de ter a nítida sensação de que faltavam letras no teclado (o que me levou a demorar horas até "aviar" míseras cinco linhas), o meu chefe conseguiu, vezes sem conta, encontar erros, gralhas, omissões e outras coisas que justificavam um risco encarnado. Hoje, modéstia à parte, não costumo demorar muito até passar as ideias para o visor do portátil. Como quase tudo na vida, é uma questão de prática.

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Mas, há momentos de excepção. Existem alturas específicas onde parece que o tempo anda para trás. Articular as ideias é tão difícil que se torna impossível conseguir escrever o que quer que seja com um mínimo de lógica. Tenho vivido assim nos últimos dias, fazendo um sacrifício enorme para cumprir com as minhas obrigações profissionais. Mas, se este fosse um problema meu... Olho em redor e sinto que este mal é geral. Os meus camaradas do Record encontram-se no mesmo dilema. Temos de fazer um jornal diário - o que nunca é fácil -, mas apetece-nos tudo menos escrever, ir a jogos ou falar com fulano ou beltrano. Que importância tem isso se, de repente, quando menos se espera, podemos deixar de aqui andar?

Sei que muita gente pensa que a vida de jornalista é um mar de rosas. Não me queixo, mas não é bem assim. Passo mais tempo no jornal que em casa. E garanto-vos saber muito mais dos gostos, virtudes e defeitos da maioria dos meus companheiros que de alguns familiares. E não pensem que estou a exagerar. É mesmo assim!

Perante este cenário, imaginem o que se sente quando, mal se coloca o pé no jornal, se recebe a notícia da morte de dois camaradas...

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Conhecia o César há muito tempo. Basta dizer que estou no Record há 11 anos e ele já cá andava quando entrei. Nunca trabalhámos juntos na mesma secção, mas coincidimos em vários serviços, quase sempre jogos de futebol. Era um jornalista "sénior", com a particularidade de não se fechar apenas em torno do mundo do desporto. Os seus interesses eram muitos e variados, o que desde logo demonstra ter sido uma pessoa acima da média.

O André surgiu mais tarde na "família Record". Esteve sempre ligado à versão "on-line", algo que retira uma certa visibilidade a quem ali trabalha. Mas, constatei "in loco" aquando da minha passagem para responsável pela Internet, não se intimidava com isso. Só se preocupava com a necessidade de aprender, de evoluir, de mostrar que podiam contar com ele. Tenho a certeza que o seu percurso profissional iria corresponder às respectivas expectativas. Era fácil diagnosticar isso: bastava ver a forma alegre e intensa como vivia; a maneira frontal, justa e honesta com que abordava os problemas e a disponibilidade sistemática em prol de um projecto em que acreditava sem reservas.

Mas, num ápice, lá no longínquo Chile, durante aquilo que deviam ter sido uma férias de sonho, acabou a vida do César, do André e das amigas que os acompanhavam. Será às suas famílias, claro está, que eles mais falta vão fazer, mas aqui no Record também não serão esquecidos. Pelo que fizeram, pelo exemplo. Resta agora, a todos nós que cá ficámos, saber honrá-los.

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PS - Já não vou poder voltar a estar com o André na "Festa do Avante" a falar de política, religião ou futebol, mas prometo que me lembrarei bem dele quando pedir um "mojito" cubano.

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