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É muito estranha a convivência entre os clubes, em Portugal. Têm um negócio para defender mas os seus presidentes e dirigentes comportam-se como se fossem donos dos seus emblemas e de todos os outros.
Põem-se, artificialmente, em acordo – para alcançar vitórias pírricas e para produzirem efeito no momento e sob uma determinada conjuntura – mas rapidamente negam aquilo que chegaram a defender com abnegação. Nos contactos que estabelecem atrás da cortina, longe dos olhares do escrutínio público, fazem juras de sinceridade e fidelidade, mas bastam alguns minutos para logo a seguir escarnecerem das posições que haviam tomado.
A Liga chegou ao ponto de indigência que se encontra porque uma figura sem lastro no dirigismo desportivo (Mário Figueiredo) conseguiu chegar à presidência, em eleições, explorando a desatenção de uma corporação sentada confortavelmente em cima de uma certa arrogância e de uns estatutos que haviam sendo feitos (e aprovados pelos próprios clubes) para dar força à acção do líder (eleito) e da sua equipa.
Acontece que Mário Figueiredo, marcado por questões que só indirectamente tinham a ver com o futebol e entalado nesse universo de problemas entre o Marítimo e o FC Porto, começou a tocar onde era “proibido” tocar. A sua condição de jurista permitiu-lhe, também, ir mais longe nesse combate e só não caiu mais cedo do cavalo que cavalgou a toda a sela porque, no futebol, independentemente das causas que se defendem, nestas refregas há sempre outras questões em aberto que motivam os principais protagonistas.
A decisão do presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, em apostar na criação de um canal televisivo próprio e, mais do que isso, promover a transmissão dos jogos da Liga no Estádio da Luz e ainda de outros campeonatos, não apenas se traduziu num golpe muito duro para a PPTV/Olivedesportos mas também para o que a “Organização” representava. A “Organização” era o cimento que estava na base de mais de 90% das decisões que eram tomadas no universo do futebol português e que reduzira os clubes pequenos – a troco da subsistência mínima – à figura de meros figurantes.
O que estava verdadeiramente em causa – e, sublinhe-se, não estou a fazer a valoração entre “bons” e “maus” – era o sistema que garantiria a manutenção do FC Porto na crista da onda desse sistema de organização do futebol português ou a criação de uma via alternativa. A “lebre” – também convicta do seu papel “moralizador”, em razão dos muitos abusos que vinham sendo protagonizados pela dinâmica monopolista – correu o que pôde, mas está muito próxima de ser cozinhada em feijoada, porque a erosão é grande e, para alguns, já terá cumprido a sua tarefa.
A esmagadora maioria dos clubes vive das receitas dos direitos televisivos e da venda de algum activo que, aqui e ali, consiga realizar. Não tem massa adepta (pagante) em quantidade suficiente para alimentar o sonho de uma certa autonomização.
O incremento das suas receitas só poderia resultar do aumento das verbas distribuídas do “bolo” global dos direitos televisivos. A centralização parece ser a solução mais apropriada, mas hoje vivemos em regime de duopólio e avanços nesse sentido serão muito difíceis de concretizar.
Acresce que são públicas as dificuldades financeiras das empresas de Oliveira e estamos sob as ondas de choque provocadas pela implosão do BES e pelo provável esquartejamento da PT.
Aqueles que – motivados pela sanha de derrubar Figueiredo – alimentam a ideia de que o próximo ciclo da Liga será virtuoso, com o céu a descarregar patrocinadores como quem nos atira a chuva, estão a promover a utopia. Olhem para a economia, olhem para a falência do sistema vigente (os principais “players” a cair como tordos...) e olhem para os sinais que os próprios administradores dos clubes (vide declarações de Fernando Gomes, do FC Porto) estão a dar para o exterior.
O esvaziamento da Liga também interessou, de certa maneira, à FPF (algo que nunca será confessado), e o interessante é que os clubes apenas têm uma ideia vaga de que um presidente activo, não; sim a um presidente-gestor das sensibilidades dominantes, sem qualquer tipo de massa crítica. Por isso tem sido difícil a caça ao candidato-de-consenso, a quem tenho dado o nome de candidato-berbigão. Um candidato que aceite instalar-se na casca e seja o pivot dos interesses dominantes.
Fica claro por que razão o Sporting tem muita dificuldade em se mover neste tabuleiro e fica claro, também, o motivo pelo qual têm sido lançados nomes de sportinguistas, não exactamente em linha com Bruno de Carvalho. Nesta fase, por causa do temperamento de Bruno, dá jeito a FC Porto e Benfica manterem o Sporting à distância.
JARDIM DAS ESTRELAS
FC Porto-Sporting sem dirigentes
Convidados a pronunciarem-se sobre o que rodeia, fora do campo, o FC Porto-Sporting desta tarde, quer Marco Silva (primeiro), quer Julen Lopetegui (depois), não quiseram comentar, e fizeram bem. Houve um tempo em que os treinadores alimentaram as “guerras” entre clubes, mobilizados pelas estruturas directivas, mas isso, felizmente, é passado. Não creio que possa acontecer, porque os treinadores gostam de ser coerentes com os seus modelos tácticos, mas seria interessante ver o Sporting jogar no Dragão “à Santos”, à Fernando Santos entenda-se, com Montero atrás de Carrillo e Nani; com Adrien e João Mário como médios-interiores, restando William Carvalho como “6”. Um meio-campo em losango, que deixaria Slimani no banco, a entrar na equipa apenas quando o jogo o aconselhasse.
No caso do FC Porto, a curiosidade está em saber até onde pode ir a rotatividade de Lopetegui, sendo certo, porém, que, através do discurso, o técnico espanhol – a quem ninguém pode retirar o mérito do lançamento de Rúben Neves – valorizou muito o jogo e o adversário.
Duas boas equipas e um bom clássico em perspectiva, se os... dirigentes não entrarem em campo.
O CACTO
Lógicas
A entrevista que Godinho Lopes deu à RTP, na qual o ex-presidente dos “leões” revelou que foi convidado por um conjunto de clubes para se candidatar à presidência da Liga, diz bem do sentido das lógicas que se manifestam nos bastidores do futebol...