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Quando os árbitros jogam

1. São os únicos sem direito a aplausos; adeptos não têm e até já sabem que, ao fim da hora e meia, serão alvo da fúria de uns e outros: contra eles se ganha, por causa deles se perde e só por milagre são bafejados pelo reconhecimento da imparcialidade. Mas os árbitros não podem queixar-se, porque avaliaram os riscos e nem por isso deixaram de sonhar com o êxito; porque detectaram as dificuldades e acreditaram nas soluções; porque enfrentaram todos os perigos absolutamente convencidos de que os podiam vencer com paixão, coragem e talento. O fenómeno é antigo, o tempo apenas lhe conferiu a dimensão de luta desigual: um apito e duas bandeirolas contra a esmagadora evolução tecnológica do Mundo; três homens (mais um que serve para quase nada) permanentemente observados e analisados pela sofisticação de máquinas e computadores. O tremendo desafio do mediatismo está lançado: no futebol, fazer cumprir a lei tornou-se um assunto colectivo ao alcance da censura popular. Logo, é um tema altamente melindroso.

2. O árbitro não pode competir com as armas da televisão – a câmara lenta, os ângulos inversos e laterais, a imagem que pára, avança e mesmo assim não esclarece todas as dúvidas; porque não tem forma de superar a desvantagem do tempo, do local e sobretudo da solidão, está condenado a sair derrotado do desafio. Como ponto de partida, o árbitro não está em condições de garantir imunidade ao engano, muito menos de jurar que não voltará a cometer erros com o valor de resultados. E sendo assim, para não perder antes de entrar em campo, tem de comprometer-se a lutar pelo estatuto de parceiro cada vez mais respeitável entre os protagonistas da grande peça, orientando a conduta na defesa do mais elementar espírito desportivo e da mais pura essência do futebol – esse valor abstracto, ausente dos livros, mas que orienta as boas consciências e faz toda a diferença. Na SuperLiga, a mudança de estilo está em curso e tem um rosto como alternativa a habilidades e inaptidões: Pedro Henriques.

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3. No futebol, há momentos em que a defesa do espírito vale tanto quanto a própria lei, cujas imperfeições legitimam as mais diversas indignidades. Quando um jogador vai para a baliza, em situação de golo iminente e o jogo acaba porque o árbitro entende que o tempo se escoou, não falamos de um erro à luz dos regulamentos, mas de uma grosseria inqualificável, que atropela o bom senso e a justiça. Os exemplos sucedem-se e o mais recente aconteceu já na edição 2002/03 da Liga dos Campeões, quando um avançado do Lokomotiv de Moscovo, em Chamartin, foi interrompido na viagem para a baliza do Real porque o juiz entendeu que não podia esperar cinco segundos pelo fim do embate. Quando um jogador está fora de campo e o árbitro o deixa reentrar num lance de contra-ataque, permitindo-lhe ir fazer golo (o segundo do Boavista no Restelo, na época passada), não é cumprir a lei, é subverter todos os princípios, prova de que, quando quer, o árbitro também joga.

4. Numa época em que os erros decisivos têm sido escandalosos na forma e no número – o reconhecimento posterior de quem os comete serve de conforto mas não indemniza os prejuízos (e não sei se o nome de Marinho Peres vos diz alguma coisa...) – chegou o momento de preservar a inteligência e respeitar a pureza das motivações dos que ainda se dão ao trabalho de ir aos estádios. A tragédia que levou à mudança de filosofia no modo de arbitrar na SuperLiga orienta-se pela certeza de que há formas imperceptíveis de o juiz se associar ao resultado. É um problema simples que tem a ver com a condução do jogo. Se um árbitro é cúmplice da pior equipa, joga contra o espectáculo, porque assume pacto ilegítimo com o afã destrutivo de quem pretende apenas lutar para não perder. Mais antiga é a inconsciente cedência às pressões exteriores, que muitos clubes tratam de estimular em todos os cantos do seu recinto e algumas vezes bem perto do relvado. Se um árbitro não resiste à tendência humana de proteger o mais forte joga contra o futebol. Isto é, joga contra nós. E não foi para isso que o inventaram.

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