1. Se há jogadores fabricados por esse laboratório notável que é o tempo, a grande maioria é produto quase exclusivo de trabalho, assimilação de dados e progresso constante. Marco Caneira nasceu central com estrutura muscular deslumbrante, enquadrada por personalidade forte, invulnerável a temores, resistente às vicissitudes da carreira e até da própria vida. Foi um líder indiscutível em todos os escalões de formação, assente na maturidade precoce que o fez desenvolver, desde muito cedo, as principais armas de um defesa completo, forte na bola dividida, bom no jogo aéreo e com sentido posicional irrepreensível: aos rápidos cruza-se-lhes na frente; aos hábeis guarda distâncias de marcação; aos imprevisíveis responde com o talento de lhes adivinhar as intenções. A todos é capaz de roubar a bola. Seja à direita, à esquerda ou ao meio.
2. Não se trata de ter eficácia individual em várias funções, é entender os fundamentos particulares de cada uma delas; é ter inteligência táctica e argumentos técnicos para coordenar movimentos e estabelecer margem de erro mínima em cada intervenção; é a capacidade para se integrar em perfeita harmonia com os parceiros de sector e em permanente cumplicidade com aqueles que actuam perto de si. Caneira conhece os fundamentos do jogo, domina a essência colectiva do jogo e a lógica de cadeia inerente ao conceito de equipa. Assente nas qualidades de central, estimuladas desde que joga futebol, desenvolveu e diversificou um extraordinário talento defensivo, que lhe permite dominar as regras necessárias ao desempenho de qualquer tarefa do miolo para trás.
3. A polivalência começa por ser uma bênção para o treinador e costuma representar um obstáculo à afirmação plena do futebolista, razão pela qual é imperioso tratá-la como se fosse matéria delicada – só funciona como qualidade absoluta para a equipa desde que bem entendida e melhor interpretada. Caneira não funciona apenas como recurso desesperado, afirma-se em pleno; não é apenas útil, revela qualidade para discutir todos os lugares do sector defensivo; continua em fase de aprendizagem mas impressiona pelo acerto das decisões atendendo aos princípios de cada função e aos interesses colectivos. Se o polivalente é, por norma, aquele que joga apenas razoavelmente em vários lugares, ele é a excepção de quem chega a superar os próprios especialistas.
4. Caneira está feito um lateral com reportório técnico seguro, apesar da menor precisão revelada nos gestos com o pé esquerdo, nomeadamente o passe longo. Mas porque tem sentido posicional, mede o tempo de entrada aos lances e conhece as suas limitações, é muito raro vê-lo cometer erros conceptuais. Sabe quando pode subir e tem de ficar; se deve entregar logo ou ser ele próprio a galgar terreno com a bola dominada. A frieza, o poder de síntese e a perfeição com que executou o remate que valeu o triunfo sobre o Nacional, levando a bola a entrar ao ângulo inferior esquerdo do guarda-redes, revela que o seu campo de intervenção pode ser ainda mais amplo – o golo foi digno de um ponta-de-lança. Depois de viver durante anos a conjura da indiferença, revelou arte para incendiar um jogo que parecia condenado ao gelo da monotonia e da ansiedade. Prova de que já merecia um papel de protagonista na grande peça.
Flanco direito
O VOO DE FÁBIO FELÍCIO. É português, criativo e canhoto. Só por isso, Fábio Felício representa a excepção numa Liga de esquerdinos importados e destros fora do lugar. Ciclicamente recupera a imagem de jogador rápido, resistente, esclarecido, inteligente, com técnica superior, tiro fortíssimo e ampla visão. Quando pudermos dizer isto todas as semanas durante dois meses seguidos, ninguém terá dúvidas: é jogador para voos muito mais altos.
TODA A EXTENSÃO DO FENÓMENO. Carlitos atravessa momento de forma espectacular, que lhe confere o estatuto de máxima figura em tudo quanto de bom o Gil Vicente tem feito nos últimos meses. Sozinho, ou quase, ganhou no Restelo, com uma exibição assombrosa; sozinho, ou quase também, destroçou aquela que até há pouco tempo era a defesa menos batida da Europa. Não vos digo mais nada: a extensão do fenómeno é tal que até já faz golos de cabeça.
ATÉ PARECE UM MIÚDO. João Pinto resistiu à dúvida e superou o choque de ver transformada em tormenta uma etapa da carreira que imaginou tranquila e feliz. Quando voltou à casa de partida para se despedir em paz, desejou que fosse o Boavista a usufruir das últimas gotas do seu enorme talento futebolístico. A divergência com as ideias de Jaime Pacheco conduziu-o ao inferno do banco; a cumplicidade com Carlos Brito devolveu-lhe a paixão pelo jogo e o peso na equipa. Está a jogar como um miúdo.
Ninguém lhe fica indiferente
Crespo vive no limite da legalidade, entre as costas da defesa e a cara do guarda-redes, procurando iludir um senhor que, de bandeirola na mão, o observa à distância e lhe denuncia as infracções. Ninguém fica indiferente ao argentino. Os companheiros, por exemplo, correm sempre na direcção dele: para o insultar quando anula ataques por fora-de-jogo ou para o abraçar quando faz golos. O pior é quando assina obras de arte e o tal delator de que vos falei o denuncia indevidamente. É nessa altura que todos se juntam (eu incluído) na vontade de esganar o prevaricador.