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Quem somos nós?

ESPELHO – Parece ter cada vez mais fundamento a ideia de que a selecção nacional é um bom espelho do País que representa. Bom início de conversa se, também como princípio, salvaguardarmos as excepções à regra, a mais eloquente das quais a Itália, bela, sedutora e criativa, tudo mais ou menos ao contrário do que é a "squadra azzurra" desde os tempos em que foi campeã do Mundo em 1934 e 1938. Citando de cor, é mais ou menos consensual que a França corresponde ao perfil de uma escola e do seu desenvolvimento, até se expressar na harmonia multirracial criada a partir de uma qualidade individual fantástica; a Espanha obedece aos requisitos da fúria, da diversidade cultural e da firmeza de convicções; na Alemanha está o rigor, o músculo, a expressão austera e a disponibilidade para trabalhar e sofrer.

SONHAR – Do outro lado do Atlântico vem o Brasil do samba, do ritmo alucinante, da magia, em suma, do código genético de quem veio ao Mundo com uma bola colada aos pés. E vem, claro, a doce Argentina, exacerbadora de paixões, unida à volta de um estilo, feita de gente que cresceu e se dimensionou com o saber da rua, acrescentando-lhe a picardia e a agressividade da revolta inerente à pobreza. Seguindo o raciocínio, o que sobra para Portugal? Que relação é possível estabelecer entre o País e a selecção? Por outras palavras, quem somos nós e até onde temos o direito de ir na exigência ao grupo que parte à conquista do Oriente? Aí chegados, a primeira conclusão não é de todo abonatória: parece claro o desfasamento entre a modesta realidade global do País (incluindo a vertente desportiva) e o fenómeno geracional de que nos orgulhamos e nos faz sonhar.

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LEGÍTIMO – É legítimo vermo-nos representados, todos nós, na expressão universal de Luís Figo; no talento genuíno e superior de Rui Costa; na magia de João Pinto; na inteligente racionalidade de Paulo Sousa; na competitividade absoluta de Sérgio Conceição; na solidez e liderança de Fernando Couto; nos golos de Pauleta e Nuno Gomes. Do mesmo modo, todos nos revemos nas batalhas levadas a cabo por Vítor Baía e Jorge Costa; emocionamo-nos com o estilo generoso que suporta a grandeza do futebol de Paulo Bento, Petit, Abel Xavier e Frechaut; admiramos o crescimento de Jorge Andrade e Caneira; não somos indiferentes ao conceito de justiça que suporta as presenças de Ricardo, Pedro Barbosa, Capucho, Beto, Rui Jorge e Kenedy.

CONSENSO – Mas a beleza de Portugal se rever na sua selecção, cuja força no contexto internacional é uma excepção à regra da esmagadora maioria da actividade do País, a empatia entre a geração de ouro e o povo que a suporta, deve ser aproveitada sem exageros. António Oliveira convocou 23 jogadores e apesar de algumas surpresas (Kenedy acima de todas) a reacção à escolha foi pacífica, quase consensual, prova afinal de que o leque não é alargado. Não sei se valerá a pena recordar o jogo com o Brasil, em Alvalade. Luiz Felipe Scolari escolheu apenas três artistas no onze (Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho), mas quando olhou para o banco tinha Edilson, Denilson e Juninho Paulista – Romário, Jardel, Élber e Zé Roberto nem entram nas contas. Ao lado, Oliveira diria para os seus botões que, não raras vezes, se cometem grandes injustiças – dá Deus nozes a quem não tem dentes...

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