Opinião
Luís Aguilar

Respect

Ninguém envelhece em seis meses. Em maio, Luisão era o pilar da defesa encarnada, o líder dentro e fora do campo, o rei do jogo aéreo. Em novembro, há quem diga que está velho, acabado e a precisar da reforma. Um exagero. O capitão encarnado faz anos. Como todos nós. Em fevereiro de 2016, celebra o seu 35.º aniversário. Vai na sua 13.ª época de Benfica. Trabalhou com seis treinadores diferentes: Camacho, Trapattoni, Fernando Santos, Quique Flores, Jorge Jesus e, agora, Rui Vitória. Com todos eles foi titular indiscutível.

Com alguns deles, saboreou a conquista de títulos e ganhou tudo o que há para ganhar no futebol nacional. Fez grandes exibições e teve outras menos conseguidas. Mas ninguém o chamou de velho quando perdeu vários duelos com Liedson. Agora, passados alguns anos, todos os erros que possa cometer devem-se à idade? E os erros de Jardel? Será que também está velho aos 29 anos?

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É um hábito comum da sociedade portuguesa. A partir de certa idade, já ninguém serve. Tem de ir para o Velhão, como diziam os Gato Fedorento. Os portugueses olham lá para fora e aplaudem a longevidade de jogadores como Maldini (saiu com 41 anos), Giggs (aos 40 anos), ou Totti, ainda no ativo (39 anos), mas mudam a agulha quando o mesmo se passa cá dentro.

O Benfica, realmente, defende pior esta temporada. Porém, resumir o processo defensivo de uma equipa ao papel da dupla de centrais, ou mesmo do quarteto defensivo, é ver o futebol por menos de metade. Diz-se, e bem, que os primeiros defesas são os avançados. Na época passada, e nas anteriores, os encarnados eram uma equipa agressiva a defender quando não tinham bola. Subiam linhas, pressionavam alto, jogavam em bloco, com os setores próximos. É um dos grandes méritos das equipas de Jorge Jesus: defendem com poucos, mas defendem bem. E todas essas dinâmicas foram mais refinadas devido aos seis anos que trabalhou na Luz.

A equipa de Rui Vitória ainda não tinha apresentado essa capacidade. Até à vitória contra o Galatasaray. Ainda que a espaços, melhorou em relação a jogos anteriores. Luisão foi determinante na vitória. Esteve num golo e marcou outro. E exigiu respect apontando para a palavra estampada na camisola. Era uma resposta direta ao comentador e adepto portista Manuel Serrão. Tem direito à sua opinião. E Luisão também pode ficar mais ou menos melindrado com o que ouve. Mas muito mal vai o futebol português quando os jogadores mais experientes se sentem na obrigação de reagir ao que dizem os comentadores e adeptos de um clube. Manuel Serrão não jogou futebol, não foi treinador, nem sequer dirigente. Luisão podia ter sentido essa falta de respeito se as palavras viessem de um antigo colega de profissão – que também jogara até certa idade – ou de um treinador. Não foi o caso. Esta perigosa iconização dos comentários desvirtua o futebol. E a culpa nem é dos comentadores.

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Os adeptos são os primeiros responsáveis. Muitos deles perdem mais tempo a ver os debates futebolísticos do que os próprios jogos do seu clube. Os ícones do futebol não são – nem nunca serão – os comentadores. Por mais profissionais, carismáticos, polémicos, irritantes ou engraçados que sejam. Seja qual for o estilo. E isto é escrito por alguém que também faz comentários desportivos em vários canais de televisão. Os ícones do futebol serão sempre os jogadores e os treinadores. É bom que os adeptos percebam isso. Mas, mais importante, é fundamental que os jogadores – sobretudo os mais experientes – não percam tempo a responder ao que ouvem na televisão.

Por Luís Aguilar
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