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1 É um solitário que acentua permanentemente a imagem de corpo estranho ao colectivo; um irreverente que resiste à ordem todo-poderosa e propõe como alternativa o espírito de aventura que valoriza risco e liberdade; um subversivo aos olhos de quem estimula rotinas e danifica o instinto, mas que apenas reivindica o direito à diferença. Ricardo Quaresma utiliza o silêncio para acrescentar mistério ao ar disperso de intenções duvidosas; reprime o sorriso para não deixar transparecer as emoções e sugere a aparência inofensiva para aumentar a eficácia de felino implacável. A linha lateral é o refúgio onde se enriquece dos argumentos contemplativos que antecedem a acção - e nesse capítulo ainda tem muito para aprender: observa, avalia e define prioridades. Ali está mais perto dos adeptos que o adoram e, apesar de ficar mais longe do jogo, mantém a aura junto dos adversários que tremem só de ouvir o seu nome. Sorte a deles quando tudo se resolve por antecipação: é que juventude, rebeldia e talento também costumam ter o banco dos suplentes como destino.
2 Quaresma não exerce sobre a equipa a influência de Luís Figo; não apresenta níveis de objectividade comparáveis a Sérgio Conceição e perde em consistência global para Simão Sabrosa; Beckham é mais perfeito a executar; Giggs e Overmars preferem a linha recta e tornaram-se íntimos do golo; Zambrotta e Camoranesi têm sentido colectivo e interpretam melhor as obrigações nas zonas neutras do campo. Quaresma começa a ganhar na idade (até depois, Denilson!) e esmaga pelo código genético: tem físico, velocidade, resistência, força e é o melhor driblador do futebol europeu, sério candidato a um lugar na história do jogo - sem imponderáveis, dentro de dois/três anos ganhará a quase todos os contemporâneos. No entanto, o seu crescimento na última época foi apenas biológico - Bölöni teve a coragem de lançar jogadores mas não potenciou as suas qualidades. Ao contrário de Hugo Viana, por exemplo, que teria ganho com mais uma época na SuperLiga, Quaresma não desfaz a sensação de que perdeu tempo em 2002/03.
3 Garrincha aperfeiçoou um drible e levou-o para o outro Mundo: recebia a bola junto à linha, ameaçava que ia por dentro e saía sempre por fora - o problema era adivinhar quando. Mané foi o melhor exemplo de uma determinada forma de encarar a vida nos flancos, expoente dos que aprimoram, por repetição, uma ou duas simulações até criarem mecanismos de confiança que os tornam infalíveis. É a opção de quem procura armas de segurança para usar em momentos delicados, mas não é a solução de Ricardo Quaresma. Este pertence aos que se lançam à estrada sem olhar para o mapa nem atender a recomendações prévias; simplesmente inventam truques pelo caminho e adaptam-nos a cada situação. Correm riscos, mas divertem-se mais; levam os dois treinadores à loucura (um por desordem, o outro por desgraça), mas recebem das bancadas o reconhecimento da paixão eterna; nem sempre pensam na equipa, é verdade, mas não faltam exemplos de vitórias colectivas ditadas pelo espírito visionário de grandes artistas.
4 A infância orientou-o para a falta de escrúpulos com as vítimas - cada drible tem sabor a vingança, sugere humilhação e representa a vitória de quem cresceu sob o espectro da derrota social. O tempo encarregar-se-á de lhe dar maturidade, arma que serve para relativizar a ausência de inspiração e mantê-lo útil aos olhos dos companheiros; enquanto estiver dependente do perfil comportamental que trouxe do berço e não acrescentar os valores adultos de experiência e responsabilidade, Quaresma correrá sempre o risco do 8 ou do 80, de ser solução que pode transformar-se em problema, de assustar os outros sem convencer os seus. Precisa, afinal, de não se diminuir por jogar a um/dois toques; de compreender melhor as regras específicas de cada zona do campo; de medir com exactidão quando pode correr riscos e quando deve apenas orientar-se pelo senso comum da equipa. Desde que não façam dele só mais um operário da fábrica, todos têm a ganhar com a evolução. Incluindo o futebol mundial.