Rio Maior: vergonha e exemplo

No dia em que correu o pano nas ligas Sagres e Vitalis - sendo de destacar o regresso da União de Leiria ao escalão principal, a consagração do brasileiro Nené como melhor marcador da prova mais importante e a justa (nova) festa do título portista -, creio que o acontecimento futebolístico nacional do fim-de-semana (e um dos mais significativos dos últimos tempos) não ocorreu em nenhum dos campos onde se concentravam as atenções gerais. Foi em Rio Maior que se viram as duas facetas do futebol: vergonha e dignidade.

Os futebolistas da equipa local, que milita na Série E da Terceira Divisão, fizeram uma das melhores exibições da carreira... sem sequer subir ao relvado para medir forças com o Sintrense! Cansados de promessas para entreter, da falta de respeito de várias entidades - a começar pelos responsáveis do clube - e de passar a vida a cumprir a sua parte nos contratos, os jogadores resolveram bater com a porta. Depois de terem iniciado uma greve de fome colectiva e de acamparem em frente ao estádio, os futebolistas interromperam a acção de protesto para preservar a sua saúde mas, perante a indiferença de todos os que se deveriam esforçar para os ajudar, cedo comunicaram que iriam faltar e jogo e, de seguida, rescindir (com justa causa) os vínculos.

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Não sou daqueles que considera que os futebolistas (ou outros profissionais) necessitam, ao final de uma semana com os subsídios e/ou salários em atraso, avançar para medidas de luta severas. É preciso compreender que a maioria dos clubes nacionais - a começar pelos grandes - vive um período conturbado, que a crise é transversal e que dificuldades momentâneas de tesouraria, mais tarde ou mais cedo, todos os emblemas têm. Mas, se aos futebolistas se pede bom senso, a verdade é que ninguém com um mínimo de dignidade deve ser obrigado a aguentar o que o plantel do Rio Maior passou durante os últimos tempos. E se é a falta de dinheiro, para quem aufere em média 600 euros/mês, que maiores problemas provoca no dia-a-dia destes futebolistas anónimos, tenho a certeza que dói mais a indiferença, a arrogância, a prepotência e mesmo a imbecilidade daqueles que, com muitas ou poucas responsabilidades no caos do clube, apareceram em público a apupá-los, clamando que o seu acto revelava hipocrisia. Deviam ser eles a ter 6 meses em atraso!

O Rio Maior, mesmo sem os seus jogadores seniores, entrou em campo com o Sintrense, apelando a uma "equipa" formada, ao que consta, por juniores. Desta forma, evitou a suspensão por 2 anos que estava à sua espera. Foi uma jogada de mestre dos pseudo-dirigentes que, assim, driblaram um grave problema. Mais complicado, claro, foi driblar os opositores. O resultado de 1-16 comprova-o...

Seria bom, contudo, que as cabeças pensantes que regem o futebol luso não permitissem que este Rio Maior - e tantos outros que por aí andam - pudesse ser inscrito para as competições federativas da próxima época. A menos, claro, que todas as dívidas estejam saldadas. Se se pretende, de facto, um futebol português mais limpo, esta é uma das medidas obrigatórias. Caso contrário, continuaremos a ter conhecimento de episódios do género e a ver sempre os espertos a escapar impunes nos intervalos da chuva. Até um dia em que a bolha estoira e a queda é a pique. Exemplos desses também há muitos. O problema é ver o Sistema aprovar regras claras que impeçam a participação daqueles que sabem prometer, mas são incapazes de cumprir.

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Os futebolistas do Rio Maior, que vão deixar o clube no terceiro lugar apesar de terem jogado sem receber 6 meses (!!!), estiveram brilhantes no fim-de-semana. E mostraram a muitos companheiros de ofício que, por vezes, não basta denunciar e ameaçar... é preciso agir. Sem medo e com dignidade. Fica a o exemplo.

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