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Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores mundiais e, por extensão, um dos maiores de sempre do futebol português. Já ganhou muitas provas e prémios individuais e, tendo em conta a sua idade e talento, não ficaria minimamente surpreendido que conquistasse outros tantos troféus/galardões ou até mais.
Não é pois pela falta de qualidade com a bola nos pés que, de vez a vez, sou forçado a criticá-lo. O madeirense tem um problema de postura perante o grupo e a competição que, por mais que tente contrariar, acaba invariavelmente por levá-lo a cometer deslizes que, independentemente de serem camuflados logo de seguida, ficam registados na memória. Dos adeptos, dos dirigentes, dos técnicos e dos companheiros.
Ronaldo é a principal figura da Selecção Nacional e dificilmente deixará de o ser nos próximos anos. Tem de saber viver com isso, com a pressão inerente a esse estatuto, tal como sucedia em Manchester e acontece agora em Madrid. Mas, de uma vez por todas, deve perceber que ser a principal figura não é a mesma coisa que ser a "estrela", o "dono da bola", o único capaz de resolver os problemas, o atleta a quem se exige que drible todos os adversários cada vez que pega no esférico ou, em alternativa, que remate de qualquer lado sem sequer tentar "ler" o jogo.
Assumo que considero estranho ver Ronaldo "descarrilar" tanto ao serviço da Selecção e começo a acreditar que o problema não pode ser só dele. Em Inglaterra, não abanou com os constantes assobios dos adeptos contrários; não se intimidou com o facto de ter vários futebolistas de nomeada no mesmo balneário e parecia até ganhar força adicional quando era acusado de "fiteiro" por parte de adversários, treinadores e jornalistas. Em Madrid, com mais figuras de proa ao seu lado, também não tardou em mostrar o seu futebol, acabando por conseguir desempenhos bem mais satisfatórios que a própria equipa. Sendo assim, então porque razão chega à Selecção e, na maioria dos jogos, limita-se a ser apenas um jogador normal?
Ronaldo, assim como outros, pode queixar-se das tácticas utilizadas, agora com Queiroz, antes com Scolari. Pode, inclusive, lamentar o facto de ser usado em posições onde não se sente tão à vontade ou de nem sempre ter ao seu lado os jogadores mais indicados. Mas, em relação a tudo isso, só deve ter o único comportamento lógico num futebolista de eleição que, por sinal, até é capitão de equipa: falar, em privado, com o seleccionador. É explicando o seu ponto de vista, dando sugestões, apontando caminhos e percebendo as ideias do treinador que Ronaldo funcionará como um verdadeiro líder.
Sou o maior defensor da liberdade de expressão (desatino com as pessoas que se recusam a pensar pela sua própria cabeça e que se limitam a debitar "conversa fiada") e sei que, por vezes (quando as coisas não correm bem), é fácil perder as estribeiras e ter afirmações precipitadas que, minutos depois, já nos estão a moer a alma. Mas, mesmo assim, há limites. Ronaldo, como principal figura da Selecção, não devia ter evitado falar à imprensa após a derrota com a Espanha e se, conforme acredito, não estivesse em condições de alinhavar meia dúzia de frases lúcidas, deveria ter pedido desculpa, assumir que estava extremamente desiludido e adiar uma análise mais aprofundada para o dia seguinte. Isto devia ser o comportamento de um jogador com peso na equipa. Contudo, ao capitão exige-se ainda mais. Como alguns colegas (actuais e do passado) fizeram questão de lhe lembrar, o líder dos jogadores tem de dar a cara pelo grupo, tem de falar e saber o que dizer, tem de medir as palavras e servir de ponto de união e não de separação no colectivo. Ser capitão da Selecção Nacional é uma honra, um orgulho, mas exige responsabilidade perante toda uma nação que, nos grandes momentos, está sempre presente com o seu apoio. Seja intramuros, na África do Sul ou em qualquer local do planeta.
Quero acreditar que Ronaldo não pretendia ofender Queiroz quando disse para os jornalistas procurarem junto do seleccionador as razões do desaire mas, sejamos honestos, alguém é capaz de visualizar a cena e considerar que o futebolista, com a sua tirada, não revelou uma crítica implícita às opções e/ou à liderança do técnico?
Para o bem da Selecção, convinha que, quanto antes, este desaguisado fosse devidamente esclarecido. E até admito que Ronaldo possa continuar como capitão com Queiroz à frente da equipa. No entanto, aquilo que para mim sempre foi claro, agora não tem discussão: o madeirense nunca devia ter assumido o estatuto de líder tão cedo. É que, ao contrário do que muita gente defende, o capitão não tem de ser o melhor jogador. Saber jogar futebol é uma coisa, ser líder é outra. Mas, também é justo dizer, a culpa não é dele, nem de Queiroz, mas sim de quem se lembrou de o colocar capitão quando ainda era tão jovem, não era o jogador mais internacional entre os habituais convocados, nem sequer o que há mais tempo estava na equipa...