RUI CARTAXANA: Quando o clubismo é doença

A CLUBITE é, como diria Marx, uma espécie de doença infantil do clubismo, o qual, por sua vez, pelo menos no futebol, tende sempre para formas de degenerescência de atitudes mobilizadoras e respeitáveis como são, por exemplo, a competição e a rivalidade, entre pessoas ou entre grupos, no desporto como em outras áreas da actividade humana.

Num momento em que, em Portugal, se vivem as últimas jornadas da I Liga de Futebol Profissional em ambiente de excitação que ultrapassa os habituais limites da normalidade e do adepto comum, com uma ou outra manifestação de clubismo fundamentalista, mas sem grandes dramas, na vizinha Espanha, onde se matam sempre os touros nas touradas e onde todos os gestos das pessoas são sempre mais patéticos e mais profundos, aconteceu no último fim-de-semana uma impressionante manifestação dessa doença que é o clubismo exacerbado.

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Foi em Sevilha e com a famosa feira anual da cidade em pleno curso que os factos ocorreram. Os dois grandes clubes da cidade, o Sevilha e o Bétis, ambos com um relevante historial e muitas glórias conquistadas por gerações e gerações de atletas, cultivam entre si uma rivalidade doentia e conhecida. Acontece que, apesar dos investimentos feitos, esta época não correu bem a nenhum deles, de tal forma que se o Sevilha está em último e, a três jornadas do fim, tem como inevitável destino a descida à II Divisão, o Bétis também não consegue fugir à zona da despromoção e parece vir a ter idêntico destino, o que deixaria a cidade sem nenhum representante na I Liga de futebol.

NO ÚLTIMO domingo, o Sevilha jogava com o Oviedo (que tinha mais um ponto que o Bétis) em Sevilha e o que se passou em campo parece que foi uma vergonha. Os jogadores do Sevilha não corriam, não se faziam às jogadas, o pessoal do "banco" batia palmas às jogadas e aos golos do Oviedo, que chegou rapidamente aos 0-3, enquanto, nas bancadas, os adeptos do Sevilha pulavam e cantavam, felizes, coisas como "Adeus Bétis, vamos levar-te connosco. Estamos vingados!"

Como o Bétis foi copiosamente derrotado pelo Maiorca (4-0), tudo parece encaminhar-se para aquilo que querem os adeptos do Sevilha - os dois clubes da cidade na II Divisão.

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Pelo que li, uma boa parte da imprensa e a opinião pública estão indignadas com este comportamento doentio, que, de qualquer modo, não envolve apenas o adepto anónimo e sem responsabilidades, mas jogadores e responsáveis do Sevilha. Alguns jornais dão mesmo a entender que este "não procurou" ganhar ao Oviedo para se vingar de uma cena idêntica, ao contrário, quando há três anos o Bétis perdeu com o Gijon de uma forma "esquisita" e condenou o Sevilha a baixar à II Divisão. A tal "vingança" que cantarolavam no domingo os adeptos do Sevilha...

COMPARADOS com estes ódios velhos, os excessos clubistas dos portugueses, ou são mais hipócritas, ou não passam de quase inocentes jogos de palavras. Como o daquele meu amigo benfiquista que este ano abriu uma excepção para "aceitar" que o Sporting seja campeão (até aqui dizia sempre que preferia "os lá de cima, até porque estão longe e não chateiam todos os dias"), na condição de, nos dois últimos jogos, o Sporting perder com o Benfica, em Alvalade, e, depois de estar empatado até ao fim com o Salgueiros, em Vidal Pinheiro, ganhar com a escandalosa ajuda do árbitro, para além da hora regulamentar e com um golo metido com a mão!

E remata: com uma "cena" destas, não havia "lagarto" que me chateasse nos próximos doze meses.

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