1. É uma brisa de talento genuíno que varre o campo de batalha, defensor da mais profunda essência de um jogo que o tempo transformou em palco de toda a espécie de indignidades; cresceu assimilando os valores éticos do futebol e referenciou os seus maiores ídolos como exemplos definitivos; porque nem todos os conceitos estéticos lhe servem para atingir os fins, recusa-se a negociar convicções e despreza profundamente aqueles que ofendem os mais elementares princípios do maior fenómeno social do século XX.
Rui Costa excedeu o milagre genético que representa e ocupou um lugar na vitrina dos mais apaixonantes jogadores da história: porque responde à loucura e à tirania vigentes com os códigos de comportamento aprendidos na infância; porque jogar foi (no mágico desconforto da rua) e será sempre (no luxo dos grandes estádios) a mais bela das aventuras; porque defende emoções intocáveis e nunca se deixou corromper.
2. Rui Costa é um gestor futebolístico com todas as virtudes no lugar, médio que dá sequência à lógica das rotinas colectivas e artista que introduz criatividade para desequilibrar à frente. Tudo nele obedece a poder de observação, à rara capacidade de medir o movimento dos companheiros, as intenções dos adversários e a velocidade da bola. São exercícios de alta precisão que o tornam caso à parte no Mundo que o rodeia: por descobrir espaços livres em zonas povoadas; por harmonizar cenários regidos pelo despudor de quem defende; por combater a imperícia de quem ataca.
É uma luz permanente nos caminhos do golo, que ilumina em amplitude e profundidade; uma presença que pode ser breve se jogar a um/dois toques ou demorada se optar por exercícios individuais. E é quando leva a bola, sempre de cabeça levantada, que atinge a expressão máxima da sumptuosidade e da elegância, mesmo quando se desleixa com as meias em baixo e a camisola fora dos calções.
3. A sua visão do campo é tão abrangente que toma decisões como se estivesse a ver a peça do 2º balcão. Pensa mais depressa e encontra soluções mágicas onde os outros não suspeitam sequer que há problemas; antecipa movimentos e relativiza o conceito de distância; costuma ser sincero e falar verdade (triunfa pela escandalosa perfeição do passe e do cruzamento) mas também sabe executar sem olhar (e assume o risco de se impor pela via do engano).
Se o seu pensamento durante a acção estivesse ligado a um microfone, a gravação final constituiria a caixa negra de todos os jogos em que participa. Ao contrário de outros, que são geniais e decisivos por si próprios, Rui Costa, como bom maestro, precisa de uma equipa à volta para se expressar na plenitude e não de estimular o instinto, esse atalho que abrevia o caminho para a acção sem pedir conselhos ao raciocínio.
4. No momento de entrar em órbita, Rui Costa teve o merecido prémio de conciliar os dados de figura universal - só lhe faltava preencher o currículo para enquadrar o talento e as paixões que desperta. Em Manchester, o seu grito foi de revolta contra a mediocridade e a vitória remeteu para dois anos de sofrimento, incompreensões e faltas de respeito.
Sabe-se hoje que a indiferença de Milão colidiu com os requisitos de felicidade cumpridos no Benfica e na Fiorentina; que a frieza de Milanello lhe roubou o sorriso e a divina providência levou (mas já devolveu) a saúde que nunca faltara em dez anos de carreira.
Rui Costa foi campeão europeu e a sua festa foi a celebração de cada um de nós. Cumpriu mais uma etapa na rota da imortalidade a que está condenado, embora desnecessária aos olhos de quem o admira. Para esses, a Liga dos Campeões foi só um pormenor de importância relativa na carreira de quem há muito lhes conquistou o coração.