Os brasileiros não são apenas campeões do Mundo de futebol. No que diz respeito a novelas, por mais que portugueses ou mexicanos se esforcem (entre outros), ninguém os bate. Surpresa, no entanto, é constatar que os britânicos, tradicionalmente adeptos das séries cómicas, estejam agora a mostrar interesse pelo estilo que tanta fama tem dado aos sul-americanos.
O "namoro" entre a Federação Inglesa e Scolari já ultrapassou o limite do razoável. Semana após semana, as notícias surgem de forma estonteante, deixando mal na fotografia todos os intervenientes. Um bocadinho de ética não ficava mal a ninguém. Tal como umas boas verdades.
Os ingleses, que se vestem como senhores mas actuam como rufias, parecem ter esquecido que Scolari tem vínculo contratual com outra federação. Que eles já tenham acordado a saída de Eriksson é algo que não diz respeito a mais ninguém, mas parece-me de muito mau gosto que falem, sempre que lhes apetece, com um treinador ao serviço de outra nação, ainda por cima quando estamos a poucos dias do arranque do Mundial da Alemanha, competição onde Inglaterra e Portugal até podem ter de jogar entre si. Estabeleçam contactos só com quem está livre de compromissos ou aguentem até ao fim do Campeonato do Mundo, mesmo que tenha recebido autorização para avançar com conversas preliminares. Não foi em Inglaterra que meio mundo se enervou porque o Chelsea "namoriscou" um jogador com contrato com o Arsenal?
Scolari também não pode passar incólume no meio de um enredo que, quem sabe?, até pode vir a interessar a alguma escola de samba. Primeiro, eram as reuniões que não tinham acontecido; depois as entrevistas aos jornais é que eram falsas; agora os contactos têm sido feitos através do empresário (o que não muda rigorosamente nada, pois o papel do representante é... representar alguém). Não será altura de o seleccionador se preocuperar com quem lhe paga o actual salário e só depois começar a tratar do futuro?
Definir, quando antes, quem será o terceiro guarda-redes; nomear um substituto para o azarado Jorge Andrade; equacionar convenientemente as eventuais promoções de Quaresma, Moutinho ou Manuel Fernandes; "inventar" um 10 alternativo a Deco; avaliar correctamente as recentes lesões de Simão e Nuno Gomes; pensar "a sério" na chamada de João Tomás para a vaga de um intermitente Postiga ou "pesar" a convocatória de jogadores sem ritmo como Costinha ou Maniche são assuntos que, em condições normais, deveriam preencher o seu rol de preocupações. Aprender inglês, por exemplo, é que me parece uma tarefa dispensável. Pelo menos, por enquanto...
No meio de toda esta embrulhada que, para não variar, dá de Portugal a imagem de um País de trouxas, surpreende-me ainda mais a posição da Federação e, por extensão, do presidente Madaíl. Se mais ninguém nos quer explicar o que se passa, pelo menos que seja ele a dizer-nos "a marcha do marcador". Mesmo que o líder da FPF saiba que o "divórcio" com Scolari é irreversível, bem se podia esforçar no sentido de nos poupar a esta novela atípica: cómica como os ingleses gostam, com um brasileiro no papel de protagonista, um enredo "embrulhado" à mexicana, e com este simpático Portugal a servir de cenário.