Por regra, podemos descrever um jogo da Seleção Nacional como 90 minutos em que Cristiano Ronaldo esbraceja, implora pela bola, desmarca-se nas alas, desespera por um passe de qualidade, vem ao meio buscar jogo, para logo depois surgir na zona do ponta-de-lança, protesta com os colegas, reclama com a arbitragem, e, no fim, acaba por ser decisivo.
Não por acaso, não há jogo da equipa das quinas em que a questão não se coloque: qual a razão para que um jogador prodigioso não renda tanto na Seleção como nos clubes? Por muito decisivo que seja, o Ronaldo com a camisola de Portugal não é o mesmo do Manchester United ou do Real Madrid.
Há duas explicações óbvias: por um lado, com exceção das finais das grandes competições, os jogos de Seleções são de tal forma espaçados que as equipas não chegam a formar rotinas e Portugal não é exceção (não por acaso, a melhor seleção do Mundo – a Espanha – replica um modelo de jogo de um clube – o Barcelona); por outro lado, Ronaldo habituou-se a jogar em equipas nas quais a diferença entre ele e os colegas é bem menor. No United e no Real, Ronaldo foi sempre o melhor, mas acompanhado por jogadores de topo. Na Seleção de hoje, com a exceção de Moutinho e Pepe, por falta de qualidade ou por degradação competitiva, não há mais nenhum jogador que se aproxime da intensidade de jogo de Ronaldo.
Sendo assim, o normal seria que toda a Seleção jogasse para Ronaldo e que se construísse um modelo de jogo propício ao melhor jogador. O que de facto acontece é uma outra coisa: é o CR7 quem joga por toda a equipa, procurando fazer tudo, em todos os momentos. Em lugar da equipa servir Ronaldo, é Ronaldo que serve a equipa. No fim, a Seleção não tem um fio de jogo percetível, joga mau futebol e Ronaldo, mesmo sendo objetivamente prejudicado no seu futebol, porque é de outra galáxia, acaba por resolver. Esperemos que hoje se repita esta história, mas que até ao Mundial alguma coisa mude.