Sporting 2001/02

BÖLÖNI – À nona jornada, depois de empatar em Alvalade com o Santa Clara, Bölöni assumia publicamente a preocupação, ao afirmar que não dispunha de varinha mágica e que o cenário se iria manter nos tempos mais próximos – mau para quem já contava três derrotas (afinal as mesmas que contabiliza seis meses volvidos) e dois empates.

Nessas declarações do treinador romeno estava implícito um pedido que todos os grandes clubes recusam liminarmente (tempo) e um alerta que poucos terão entendido na altura: a ideia inicial para a equipa, a sua concepção técnica e táctica, assente em níveis físicos uniformes e elevados, sofrera um rombo na coerência com a inclusão de Jardel.

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Ao fim de dois meses a criar automatismos entre João Pinto e Niculae, nascia o tridente e a necessidade de começar muita coisa de novo.

JARDEL – Bölöni analisou a folha de serviços irrepreensível do maior fenómeno individual do campeonato português dos últimos dez/doze anos, mas via um ponta-de-lança a lutar nos limites da força de vontade para sobreviver às mazelas de uma lesão antiga; olhava para o seu passado feito de números arrasadores e percebia a esperança que suscitava à sua volta, mas o que via era um homem à procura de confiança para reencontrar o caminho e suportar totalmente a convicção de que é um dos melhores do Mundo no seu posto.

Por isso mesmo não se deixou impressionar com os primeiros golos do brasileiro e no fim desse importante jogo com o Santa Clara, em maré de confissões, disse com todas as letras que a situação de Jardel o preocupava.

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Uma semana depois, em Paços de Ferreira, com varinha mágica ou sem ela, o Sporting iniciou a cavalgada que havia de o levar ao título nacional.

JOÃO PINTO - Hoje parece evidente que o processo de integração total do ponta-de-lança no colectivo e a forma como a equipa, na sua totalidade, o soube assimilar, com alguns sacrifícios sectoriais (César Prates no banco e Beto a defesa-direito para formar uma dupla de centrais André Cruz-Babb), é o factor que melhor explica a vitória na Liga 2001/02.

Sem perder de vista o génio de João Pinto que, na sua melhor época de sempre, serviu para potenciar o talento do goleador e dar imprevisibilidade na zona de ataque; a fantástica produção de Paulo Bento, trave a que todos se agarraram nos momentos difíceis; a sumptuosidade do futebol único de Pedro Barbosa, que deu suavidade e harmonia ao jogo sportinguista após a lesão de Niculae; o nível elevado da regularidade de Rui Jorge e o cumprimento não comprometedor dos guarda-redes Nélson e Tiago.

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VIANA E QUARESMA – Mas a grande vitória de Bölöni, numa visão mais romântica, foi a coragem de dar ao Sporting e ao futebol português dois jogadores capazes de marcar os próximos dez anos no contexto europeu e mundial: Hugo Viana e Ricardo Quaresma.

Um tem a maturidade precoce dos talentos superiores, a capacidade de decidir sempre bem, de tornar fáceis as coisas difíceis, tudo conjugado num futebol de vistas largas, com uma técnica de passe absolutamente fabulosa e que define, no fim de contas, os excepcionais futebolistas de todos os outros.

Quaresma é o vulcão pronto a explodir, um menino que só pode ter vindo da rua, porque só da liberdade, da despreocupação e das dificuldades pode nascer alguém capaz de armazenar tantos dribles, essa arte do engano e da fuga sempre mais próxima dos bons malandros que dos rapazinhos obedientes e bem comportados.

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