1 Prova de que a idade não lhe diminuiu o prazer de remar contra a maré, César Luís Menotti lançou a polémica por via de uma opinião ousada. Disse "El Flaco", sem medo das palavras, que Ronaldo não sabe jogar futebol e que Makelele, por exemplo, respeita melhor os seus parâmetros de avaliação nesse capítulo. O choque obrigou-o, mais tarde, a explicar que não queria ferir sensibilidades, muito menos beliscar a qualidade do brasileiro. Concordou então que o "Fenómeno" tem talento e intuição para marcar diferenças no seu raio de acção, mas insistiu que não cumpre os requisitos de quem conhece o jogo e a complexidade do que o envolve. Claro que (ainda) tem um motor de F1 nas pernas, dribla, remata com precisão e continua a ser decisivo; isto é, tem as armas individuais necessárias para ser eficaz mas não conhece a verdadeira essência de um desporto como o futebol: os seus segredos colectivos, cujo entendimento é a chave da afirmação daqueles para quem a Natureza foi menos generosa.
2 Tiago tem perfil de adolescente feliz e um rosto que não se distingue na multidão; sendo ele a indicar o caminho, não precisa de falar para se ouvir nem de músculo para se impor; é um profissional íntegro, mas a sua dimensão total não se esgota no cumprimento do dever: pertence à estirpe dos que valorizam a história da camisola, seja ela do Sp. Braga, do Benfica ou de Portugal. Cresceu despreocupado em relação a coisas menores como o protagonismo, razão pela qual vive indiferente ao lugar que ocupa no palco e à importância que a plateia lhe atribui na hierarquização dos actores preferidos. É um jogador nascido e orientado segundo os princípios da solidez, cuja virtude não foi logo detectada, embora olhares mais atentos tivessem previsto a glória como fim inevitável para a evolução. Tiago é um médio de importância vital, figura maior que resume o papel de solista (técnica apurada) e a generosidade do operário (não se envergonha de ajudar em qualquer trabalho).
3 Parte da influência que exerce no conjunto está ligada ao modo como participa nas associações curtas, de progressão apoiada e rápida, através das quais expressa uma qualidade cada vez mais rara: a interpretação fiel do que o futebol tem de risco, raciocínio e sentido prático. Por solidariedade nunca se esconde, por coragem assume todas as lutas; por não querer especializar-se, atingiu o estatuto de referência em duas vertentes: pela contribuição defensiva e pela forma como ilumina a estrada que conduz ao ataque. Mesmo sendo mais robusto do que parece, Tiago prefere não assumir por inteiro a defesa do castelo; por lhe faltarem os argumentos artísticos dos grandes craques, dialoga com eles e tenta ajudá-los a encontrar espaço, tempo e condições para que os desequilíbrios tenham mais probabilidades de êxito. Agora que o domínio geográfico do campo é quase total, domina muitos atalhos para corresponder a outras solicitações. O golo, de quem se tornou íntimo, é apenas a mais visível de todas.
4 Quando chega aos seus pés, a bola não espera receber provas de amor, embora saiba também que não será maltratada; ali descansa pouco (é jogada a um/dois toques), mas tranquiliza-se ao perceber que leva sempre o destino certo. Tiago é daquelas estrelas que realçam os valores da simplicidade e da eficácia, alguém que se movimenta à vontade pelos corredores do poder (a zona central), exercendo a autoridade silenciosa que as bancadas registam e os intervenientes directos no jogo sentem; um médio que, despojado de superficialidades, transporta inteligência, equilíbrio e qualidade técnica para cumprir todas as tarefas. Não conhece manuais de etiqueta, falta-lhe pose para ser figura antes da acção e só depois se revela como um grande, que tem bom-gosto, defende uma ideia e raramente se engana. Sem jeito para ser solene, Tiago é daqueles amigos que passam a vida a dar prendas a companheiros e adeptos, suportado na convicção de que ninguém se queixa do embrulho quando recebe jóias preciosas. A história do futebol também é feita de gente assim.