1. Tem no rosto os traços da adolescência por concluir, passada entre salas de aula e campos de futebol; o aspecto franzino, que sugere fragilidade, esconde afinal exuberância física surpreendente; o nome, de ressonância sportinguista, introduz ironia na história de quem vive à frente daquilo que o destino parecia reservar-lhe. A época passada, Manuel Fernandes respondeu silencioso à chamada de Camacho; em voz baixa continua a dar satisfações aos apelos de Trapattoni. Mesmo não cumprindo todos os requisitos deste mundo selvagem que obriga a individualizar sucesso e fracasso - as suas respostas e soluções técnicas são preferencialmente colectivas -, pode ficar tranquilo: o grande futebol jamais dispensará jogadores como ele.
2. Manuel Fernandes domina quase todos os mecanismos do jogo principalmente porque possui visão periférica de 360 graus, qualidade rara que também serve para distinguir os melhores de entre os bons. Medir instantaneamente o que se passa à volta e ter capacidade para discernir em cada momento o que deve fazer, com e sem bola, constitui qualidade tremenda para quem actua na zona central. Aos 18 anos, não é comum ter a maturidade com que alimenta o funcionamento global da equipa e se preocupa com o seu equilíbrio. Naquele jogo cristalino, que evita o adorno e não reclama protagonismo, tem estampados os valores da lógica, da solidariedade, da inteligência e da abrangência territorial.
3. O seu talento revela-se igualmente na versatilidade dos argumentos: vive atrás, sabe aparecer à frente e nunca se perde quando tem de andar para trás e para a frente - defende, ataca e faz as transições. Manuel Fernandes é frenético a procurar a bola mas frio quando toma decisões. Por agilidade, reflexos, potência e um espírito que chega a parecer obstinado, é electrizante nos despiques individuais; porque sabe colocar o corpo e domina os segredos de travagem, arranque e mudança de direcção, cria aos adversários dificuldades devastadoras na forma como lhes anula as intenções e os coloca, automaticamente, perante novos problemas. É nessa altura que segue o instinto com que alimenta a inspiração. Também sabe levar a bola com segurança; revela visão e qualidade de passe para criar roturas; tem atrevimento e armas suficientes para ser perigoso na aproximação à baliza contrária.
4. Quando agregar às qualidades que possui a confiança inerente à continuidade da aposta como importante elemento do plantel encarnado; se o Benfica lhe proporcionar o amparo das vitórias que fazem crescer em segurança e são fundamentais para quem está em início de carreira; se aceitar, como tem feito até agora, o enquadramento pedagógico que lhe permite assimilar o papel de aluno perante os professores que o rodeiam; se aproveitar convenientemente os benefícios do crescimento biológico por concluir, Manuel Fernandes reunirá as condições necessárias para delimitar o seu espaço no futebol português. E, mais tarde ou mais cedo, tornar-se alternativa para a Selecção Nacional.
A sentença do futebol
Após a derrota em Leverkusen (0-3), Roberto Carlos traçou um diagnóstico perfeito dos problemas do Real Madrid de corte milionário. "É preciso menos samba e mais futebol", disse o lateral-esquerdo, para acrescentar uma ideia certa mas com poucos adeptos: "Estamos a correr demasiado. Há que pensar mais e deixar que seja a bola a correr." Quanto à reacção mais veemente de Camacho foi muito claro: "Não sou partidário de broncas no balneário. Se dás um murro na mesa, ou partes a mão ou partes a mesa." Até parecia que estava a adivinhar...
FAIXA LATERAL
Liedson já estava na lista negra
Liedson já estava na lista negra do árbitro quando foi expulso - basta tentar perceber as suas palavras depois do primeiro amarelo, altura em que passou a viver sob tolerância zero. Logo a seguir ao intervalo foi claro que Xistra riscara o bom senso das opções para relacionamento futuro. Bastava-lhe um motivo para o expulsar. A ansiedade era tanta que o fez sem razão.
O pé esquerdo de José Pedro
Colada ao pé esquerdo, José Pedro não costuma levar apenas a bola; com ele seguem os olhos e a alma criativa do bem apetrechado Belenenses de Carlos Carvalhal. Mas com ele viajam também um monte de soluções técnicas para todos os gostos (o golo incluído) e a ambição bem fundamentada de se transformar, com o decorrer do tempo, numa das grandes figuras da SuperLiga 2004/05.
As combinações de Manduca
Fez os dois golos com que o Marítimo venceu Glasgow Rangers e Sporting; marcou em casa e fora; a jogar como ponta-de-lança e como avançado-esquerdo. Na Madeira está a confirmar o que já se sabia: é uma combinação muito interessante da íntima relação que mantém com a bola, físico suficiente para não a perder, velocidade, drible fácil e remate certeiro. Gosta de participar e finaliza com acerto. Vale uma aposta em como não vai ficar por aqui?