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Todas as lições do especialista

1. Para quem só procura a magia dos truques, dos dribles, das correrias e dos golos, a esquerda recuada do palco é uma decepção. Afastado do centro de decisões habita um futebolista que não se distingue pela exuberância mas conhece todas as regras da marcação e do desarme; que não tem físico robusto mas domina as diagonais defensivas e não comete erros de posicionamento; que não é muito rápido mas chega sempre a tempo; que não sendo artista possui talento suficiente para não se deixar pressionar com a bola e oferece alternativas ao processo ofensivo. Numa altura em que o futebol caminha para a universalidade, Rui Jorge responde, por antagonismo, como especialista de uma função para a qual está apetrechado com todas as soluções.

2. Rigoroso na leitura que faz dos duelos individuais, é perfeito a estabelecer relações de força com os adversários directos; por saber que é proibido ser ultrapassado em drible, mantém distâncias para defender as costas; por articular bem os movimentos e ter noção do espaço, o tempo de entrada aos lances não merece recriminação; por ser inteligente na avaliação do cenário que o rodeia, é rápido a agir e a reagir. Possuidor de excelente pé esquerdo, Rui Jorge apresenta ainda óptimos argumentos técnicos: jamais denuncia um passe; imprime ângulos e curvaturas à bola que facilitam o domínio do receptor e garantem segurança à progressão; na zona de ataque, executa com precisão milimétrica cruzamentos cujo veneno não está dependente da proximidade da linha de fundo.

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3. Rui Jorge é um caso à parte em Portugal e não apenas por ser o melhor na sua posição. Porque tem ideias no lugar, discurso fluído e apurado sentido de humor, transforma as conferências de imprensa em aulas práticas de comunicação; porque reflecte sobre o que o rodeia colocou Bölöni em dificuldade ao equacionar os méritos da preparação física a meio da época 2001/02 ("quando regamos de mais uma planta ela murcha" é frase transcrita no "Bloco Notas" do romeno); porque tem orgulho, conhece o meio em que está inserido e valoriza o papel de cada um no espectáculo, foi até ao fim quando um assistente concluiu diálogo aceso com uma ordem indecente: "Cala-te e corre."

4. Em Setembro de 2002, com o Varzim, foi expulso por crime que não cometeu; quando Paulo Paraty exibiu o cartão vermelho já ele corria para as cabinas, entregue à revolta silenciosa pela injustiça que as imagens televisivas confirmariam. No comportamento discordante, mas a todos os títulos razoável, estavam sinais de quem concedia ao juiz o direito ao erro; no Bessa mostrou-se vulnerável à prepotência e ao despudor, mas manteve a decência perante o escândalo - voltou a virar costas e a recusar conversas. Um árbitro que estimula a provocação e promove o desrespeito junto dos jogadores está para o futebol como um polícia bêbedo para a sociedade: é o produto indigno, legitimado pela farda, de uma lei pervertida. Rui Jorge tem toda a razão: de gente assim, é fugir a sete pés.

Passe curto

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Como se fosse da família. O maior génio da história do futebol e máxima referência de uma geração, está às portas da morte. Condenado à eternidade, Diego Armando Maradona sofre agora as consequências de exageros passados. Não sei como vos dizer isto, mas a espera por notícias melhores é tão angustiante como se fosse alguém da família.

O apito é uma arma. Lucílio Baptista assinalou 69 faltas (recorde do campeonato) no Paços de Ferreira-V. Guimarães. Para salvar a pele num jogo de risco, o árbitro deu cabo do espectáculo provando, à sua maneira, que o apito é uma arma.

Resistente à tormenta. É um jogador imune à realidade tormentosa de um Paços de Ferreira a caminho da despromoção. Zé Manuel, cobiçado por meia SuperLiga, tem acrescentado argumentos que o tornam cada vez mais apetecível. O golo ao V. Guimarães é apenas o mais recente episódio da história.

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O esplendor de Simão. No balanço global da SuperLiga 2003/04, Simão é candidato a melhor jogador da época. Em Braga, num embate de elevada exigência para o Benfica, explodiu com exibição esplendorosa, que estilhaçou a resistência bracarense. Está feito o anúncio formal: é ele a maior esperança encarnada para o assalto ao segundo lugar.

O futebol italiano e Roberto Baggio

Do pragmatismo que rege o futebol italiano, orientado por linha ideológica na qual só conta o resultado, saiu a surpresa: Roberto Baggio vai concluir, com a Espanha, extraordinária carreira ao serviço da "squadra azzurra". Um gesto de gratidão que dignifica o futebol e faz justiça a um dos melhores jogadores de todos os tempos, expoente máximo de estética fora de moda. Em Portugal, aos 37 anos, e até menos, não há quem resista ao preconceito. Ainda temos muito que aprender.

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