1. O equipamento chega a parecer excessivo como embrulho daqueles 171 centímetros de altura por onde se espalham 67 quilos de peso; porque tem coração a mais para corpo tão franzino e imagem de menos para o número (10) que traz nas costas, Juninho Petrolina precisa de tempo para desfazer os paradoxos alimentados até ao primeiro apito do árbitro. Nessa altura faz explodir os sinais de grandeza que transporta e tudo começa a fazer sentido: pela excitação permanente com que assume o orgulho de ser futebolista, desafia o destino com rebeldia; porque tem prazer em tocar a bola, está sempre disponível para receber e jogar; por se sentir comprometido com companheiros e adeptos, desafia os seus próprios limites, motivado pela eterna esperança de conciliar coragem e inteligência, dois valores aos quais a condição humana, por definição extrema, atribui incompatibilidade existencial.
2. Juninho possui todas as armas geradoras de surpresa no futebol: é habilidoso, tem fantasia, domina a mudança de ritmo e possui uma velocidade de reacção extraordinária. É imprevisível, trata a bola com delicadeza e, logo a seguir, explode em movimentos frenéticos; pensa depressa, executa com serenidade e sai de cada acção com agilidade felina; é um visionário com olhar iluminado, que tem objectivo para tudo e nunca se perde nos labirintos de acesso à baliza adversária. Na zona de finalização, o seu radar detecta a iminência do golo, mistério com o qual mantém relação como intermediário das ideias colectivas e o toque final. Vá lá saber-se porquê, revelou sempre pouca aptidão para assinar as obras que concebe, referenciadas em Aveiro com os nomes de Fary (ontem) e Wijnhard (hoje).
3. Se o engenho serve para resolver complicações, a verdadeira dimensão de um craque só se expressa nas dificuldades. Juninho iniciou a aventura portuguesa perante um desafio de êxito quase impossível: conquistar a Europa em representação do Beira-Mar. Porque lhe falta escola (chegou tarde ao profissionalismo) limitou-se a não trair a Natureza; seguiu o instinto, esse valor pessoal e intransmissível dos grandes jogadores, mas descobriu que para ser feliz, convencer o treinador e satisfazer a plateia era preciso muito mais. Como não estava habituado a respeitar obrigações defensivas, a cumprir tarefas específicas e a valorizar a ordem global, sentiu-se preso, desarmado e a caminho da uniformização que sempre combateu. Resistiu porque tinha uma fé inabalável: havia de mostrar o que vale.
4. Quando o talento se encontra com a liberdade, toda a magia é possível, mas só quando lhe agrega responsabilidade e ambição o futebol encontra a plenitude do assombro. Juninho Petrolina resumiu o processo evolutivo e tornou-se único. Dotado para as associações curtas que reclamam o envolvimento dos companheiros e dão forma à progressão com a bola no pé, age como serpente venenosa que multiplica o potencial de uma equipa notável. No lugar que sempre reclamou, em funções nas quais se sente mais confortável, concretizou a desejada transformação: ontem acrescentava qualidade, hoje dá o estilo; era apenas mais uma solução de ataque, hoje é o denominador comum da acção criativa. E agora que deixou de ter limites para a ilusão, talvez ainda vá a tempo, aos 29 anos, de concretizar o sonho que o fez atravessar o Atlântico.
Inspirados pelo talento de Fredrik Ljungberg
São presença habitual nas grandes palcos, mas nunca ultrapassam a indiferença; quando emigram para países habituados a requintes com a bola, há sempre quem os reduza a rapazes altos e louros.
São os suecos, escudados no rigor, munidos com as armas de concentração e solidez colectiva. São melhores do que parecem. A grande figura para o Euro-2004 é Fredrik Ljunberg, o talentoso médio que joga no Arsenal.
Chamem-lhe tosco, a ele e aos outros, e depois vão ver como elas mordem.