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Parecia que estava de volta o meu estimado João Malheiro, que em seu glorioso tempo conseguiu quebrar o cinzentismo reinante e animar-nos os dias rotineiros, disputando à desgarrada, em nome do Benfica, o protagonismo e o humor corrosivo e espontâneo de Jorge Nuno Pinto da Costa. Mas não, agora era José Veiga, que resolveu enfrentar a fera numa área em que claramente perde, ele e outros, para o líder portista. A falta de jeito do empresário encarnado para a função não quer dizer que não possa ter bons momentos, como aconteceu desta vez, quando, comparado por Pinto da Costa ao menino Tonecas, meteu o presidente do FC Porto no "cast" da série "Os Batanetes". Foi lindo! É bom que haja nos grandes do Sul um acompanhante para a "verve" de Dias da Cunha, disposto a alargar, para lá dos já aborrecidos contornos do "sistema" e mais "sistema", as respostas e as contra-respostas às acometidas verbais, quase sempre imparáveis, do senhor do Dragão. Temo que José Veiga tenha saído abananado deste confronto e se fique por aí. Se assim for, tenho pena. Uma pincelada de humor e frescura faz falta ao futebol. E ao País.
1. Fernández
Teve o simpático espanhol o momento de sorte que já tardava: a defesa do V. Guimarães um bocadinho aos papéis e, não podendo lá ir o Costa (Pinto da), apareceu - e ele aparece muitas vezes, Alex Ferguson que o diga - o providencial Costinha a dar à bola a martelada fatal. Víctor Fernández exultou e, não sendo Reinaldo Teles homem para essas festividades, vai de dar um abraço a quem ali estava mais à mão: o pouco antes substituído Derlei. Por acaso, gostei. Resta descobrir se o bom do Víctor é mesmo um "porreiro" ou se está apenas a tentar ter o plantel na mão para não seguir o rumo de Gigi. Vou pela primeira hipótese - vou pelo homem.
2. M. Cajuda
Os deuses não dormem e Manuel Cajuda - que deixou a Mariano Barreto a "herança" que permite ao Marítimo estar isolado no segundo lugar da SuperLiga - volta a treinar uma equipa do campeonato principal. Merece-o. Se há técnicos que deixam marcas nos clubes por onde passam, Cajuda é um deles. E dos cinco treinadores afastados até à 4.ª jornada o algarvio foi o primeiro a arranjar emprego. Substituindo o inglês que estava no Beira-Mar e que não se adaptou à portugalidade. Ficava tão irritado com as nossas pecularidades e ralhava tanto que Mano teve de o despachar. Cajuda, ao menos, conhece bem o país onde vive...
3. Lito Vidigal
Longe de mim a lembrança terrível da época em que o meu "Belém" acumulou treinadores - e alguns de indiscutível competência - para acabar por dar com os costados na divisão secundária... Sinceramente, não sei se esse será o melhor caminho, mas a verdade é que as danças de treinadores nunca estiveram tão activas como agora. Não, não estou a bater na mesma tecla da SuperLiga, mas a enviar uma saudação ao Lito Vidigal, que também jogou no meu clube e é o novo técnico do Portosantense. Só não sei é por quanto tempo, já que os insulares não são para brincadeiras - Rui Cerdeira, Matias e Vítor Gomes já foram à vida! Nesta época...
4. E Queiroz parou de rir
Ontem, só mesmo ontem Carlos Queiroz fez com que deixasse de ecoar pelos cantos mais escusos da velha Manchester uma sonora e sentida gargalhada. Banido da corte madridista como o último dos canalhas, o antigo treinador dos merengues teve, com a demissão de Camacho - e, antes disso, com uma série negativa de resultados muita parecida com a sua -, uma visão deliciosa: o presidente Florentino Pérez, completamente nu, sobre a marca do pontapé de saída do relvado de Chamartin. É que a época 2004/05 do Real, apesar das novas contratações, começou transportando no bojo os males de que enfermou a velha, a queirosiana: um plantel desequilibrado e um conjunto de primas-donas (Figo fica de fora, já que foi sempre um fantástico exemplo de profissionalismo) que não se deixa dirigir pelo melhor treinador do Mundo. Quando o rapaz Beckham dizia a Queiroz que não treinava porque tinha compromissos publicitários (já nem falo do famoso "fuck you!" que passou impune), queria com isso mostrar quem mandava. E assim se compreende a opção pelo patusco Remón. Olhem, agora... até já ganham!
5. N. Almeida
Sei que não posso abusar, que começam logo a dizer "lá está o gajo a defender os pastéis", mas aquele tal de Nuno Almeida, que arbitrou o Estoril-Belenenses, não pertence a este filme... ou talvez pertença! É que o robusto e aguerrido N'Doye já não devia estar em campo para marcar aquele golo de ressalto se o apitador algarvio o tivesse mandado para o banho na sequência de uma entrada-suicida sobre Marco Paulo. E não saber que quando os defesas se encontram para além do seu meio-campo os avançados adversários não estão em off-side também é esclarecedor da pobreza do nível. Parabéns, sim, ao Estoril, que mereceu a vitória!
Às vezes chegam cartas...
"Meu caro Alexandre Pais
Permita-me que assim o trate, apesar de não nos conhecermos pessoalmente. E perdoe-me o atraso, que sou o primeiro a lamentar.
Venho trazer-lhe um abraço, de apreço e gratidão, pela forma como o 'Record' noticiou, no dia 18 de Agosto findo, as distinções atribuídas pelo Governo anterior, sob proposta do CNID, ao Aurélio Márcio (Medalha de Mérito Desportivo), ao Carlos Arsénio, ao Joaquim Castro e a mim próprio (Medalhas de Bons Serviços Desportivos).
Foi como que o regresso aos saudosos velhos tempos em que havia espírito de camaradagem entre os jornalistas e entre os órgãos de comunicação social. E eu não podia ficar indiferente a esse facto - ainda que não fosse um dos contemplados pela generosidade da vossa notícia.
Parabéns e muito obrigado.
Cruz dos Santos"
Meu caro Cruz dos Santos, a sua carta é o seu retrato. E vindo tão nobre atitude de um homem que pertenceu à "geração dos príncipes" de um jornal que marcou a nossa juventude, as suas palavras são uma honra para mim e para o Record, e um exemplo em que devíamos meditar. Um abraço. Obrigado!