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Os treinadores deixam-se contagiar pelo medo de estrelas que exercem como peças soltas dos mecanismos instituídos: por um lado, armam-se até aos dentes para minimizar os efeitos da criatividade alheia; por outro, reprimem a liberdade quando se trata de revertê-la a seu favor, condicionados pelo receio de verem qualquer unidade (pode até ser um génio) escapar ao crivo repressivo de organização, ordem e disciplina. A história enche-se de generais rendidos ao talento de soldados inimigos com armas personalizadas mas que, depois, não sabem aproveitá-los se estiverem ao serviço do seu exército. Durante o Mundial de 1958, Vicente Feola assistia pela televisão a um jogo da Suécia. No estágio, o selecionador brasileiro revelou admiração por Hamrin, um dos craques nórdicos. Nilton Santos, que foi dos mais notáveis defesas de todos os tempos e titular indiscutível daquele escrete, não resistiu: “O senhor tem aqui o Pelé e o Garrincha, que fazem aquilo muito melhor, e deixa-os no banco.”
Ao invés de outros magos, Jesus Corona consegue sorrir e ser feliz neste futebol de corte industrial; veste a farda e mascara-se de trabalhador como os outros mas está sempre à espera de encontrar o tempo e o espaço para exercer como artista vindo de outra galáxia. Recusando tiques exibicionistas, é um fenómeno em busca de condições para criar o assombro e martelar o jogo com a fúria criativa de uma classe à parte. Sendo um potencial transgressor, adapta o estilo às rígidas leis da burocracia; segue o instinto mas domina os princípios que aconselham a jogar de memória. É um jogador em permanente agitação, que faz explodir a lógica: dribla onde não pode e remata de onde não deve; trava em campo aberto e acelera em zonas congestionadas – tudo serve para se cruzar com a inspiração e, mesmo quando parece fazer tudo ao contrário do que manda o bom senso, no fim ninguém lhe regateia aplausos pelos milagres operados. Só os adversários os lamentam. Naturalmente.
Poucos como ele satisfazem todos os interesses e visões futebolísticas: movimenta-se junto às linhas laterais, perto da plateia que o adora e venera pela sumptuosa expressão de uma arte especial, mas longe da bola que ama e sem a qual perde protagonismo; revela temperamento competitivo e inteligência tática para entender o papel que lhe cabe no jogo e com isso tranquiliza o treinador para quem o desestabilizador da ordem e também funciona como polo de harmonia global do exército. O mexicano constitui trunfo suplementar de virtuosismo na pele de quem sabe esperar, lutando como os outros, pelo momento certo de entrar em ação com as armas que mais lhe convêm. E é quando se deixa visitar pela inspiração que acrescenta ideias e soluções personalizadas aos guiões mais rígidos e repressores da livre iniciativa.
Há em Corona o sentido funcional do operário escrupuloso mas também a extravagância das invenções inconcebíveis; o talento de aceitar a realidade mas acrescentar-lhe elementos de um mundo mágico feito de fintas, truques, sonho e fantasia. É um génio associado ao engano e à mentira, que faz tudo ao contrário do que sugere, mas simultaneamente um futebolista concreto, que também fala verdade. Sendo criador ilimitado de magia e gerador de exaltação, fruto do sangue quente que lhe corre nas veias, sabe ser letal quando aparece nas imediações da baliza, onde é preciso ser frio para dar eficácia ao último toque – e vão 4 golos em apenas 6 jogos. É raro um jogador caracterizado pelo malabarismo enquadrar-se de forma tão perfeita com as necessidades competitivas do futebol moderno; é difícil adaptar a aparente superficialidade de um estilo individualista e arriscado ao sagrado valor de segurança e equilíbrio coletivos. Aos 23 anos, já conta com muitas vitórias antecipadas no processo de construção como jogador.
Paulista com coisas de Matic
Bruno Paulista revelou imenso potencial na estreia – o máximo a que podia aspirar. Tem sentido posicional, visão, físico e um pé esquerdo notável para quem vive na intermediária, fazendo lembrar Matic, por estilo, movimentação e funções em campo. Aos 20 anos, o sérvio não jogava tanto; veremos se, aos 25, o brasileiro continua a poder comparar-se ao jogador do Chelsea. Jorge Jesus terá voto na matéria.
Carcela também conta para a luta
Carcela rendeu Gonçalo Guedes, foi posto à prova num jogo que não correu bem ao Benfica e, mesmo assim, saiu ileso do teste. Mais do que isso, sugeriu candidatura à titularidade: é tecnicista, forte nos lances individuais e tem relação interessante com a baliza – assinou um grande golo. Sendo canhoto, atua pela direita e cria perigo à medida que vem da linha para o meio. Pode vir a ser um jogador importante.
Que Carlos Xistra tenha muita sorte
Carlos Xistra vai dirigir o dérbi – seguindo as linhas orientadoras das nomeações, não podia ser outro, o que não abona a quantidade dos grandes juízes portugueses. Não pela qualidade de Xistra mas pela falta de alternativa. Num momento de enorme tensão entre os clubes, deseja-se apenas que o beirão tenha sorte e escape à fúria dos ‘especialistas’ de futebol que só sabem falar de árbitros e seus erros.