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É impressionante que jogue tanto e tão bem; é extraordinário que o faça cada vez melhor. Se dentro de dois anos estes pressupostos se mantiverem, João Moutinho será uma lenda eterna do futebol português. É para lá que caminha.
1 - Há muitos anos, um treinador anunciou de véspera que iria jogar olhos nos olhos e com intenção ofensiva a casa do adversário. Porque passou a linha de meio campo três vezes, esteve hora e meia junto à sua área, não rematou à baliza e perdeu por números exagerados, na conferência de imprensa depois do jogo os jornalistas não o pouparam ao desfasamento entre intenção e realidade. O míster aceitou a crítica: “Têm razão. Previ tudo menos que o adversário nos roubasse a ideia.” Está na ordem do dia a avaliação impiedosa de equipas organizadas e obsessivas que jogam a não deixar jogar; exércitos compostos por soldados sem pudor, que triunfam por insistência e cuja única missão é anular a arte dos outros. São gladiadores nocivos ao espetáculo mas que também ganham a vida jogando futebol. Logo, fazem parte da família.
2 - O problema só se resolve enfrentado com coragem, sem recriminações ou queixinhas. João Moutinho é, em Portugal, o exemplo mais eloquente de uma estirpe de futebolistas: aqueles que procuram a inspiração e vivem todas as tormentas do jogo trabalhando como operários. Enquanto as musas não despertam para que expressem fantasia, distinção e talento, o segredo é nunca se renderem perante esse combate desigual com adversários que parecem fazer parte de um mundo diferente. João é exemplo de coragem pelo modo como luta pela criatividade, indiferente ao erro, às recriminações das bancadas ou até aos olhares de tensão saídos do banco. Diz o treinador argentino Angel Cappa: “O atleta, quando chega, acaba; o futebolista, quando chega, começa.” Moutinho chega sempre e nunca acaba.
3 - Com o Málaga foi monstruoso, por dinâmica e inteligência, naquela impressionante manobra com que o FC Porto eletrocutou adversários no momento de perder a bola. Porque a qualidade da posse também depende do tempo que a equipa demora a roubar a iniciativa ao adversário e da zona em que o consegue, o campeão nacional foi tremendo nessa ação, correspondendo à ideia segundo a qual correr só faz sentido respeitando quatro parâmetros de orientação: quando, para onde, porquê e para quê. Moutinho foi, de todos os jogadores azuis e brancos, aquele que melhor conjugou recuperação e organização, perante adversário que, tendo feito apenas um remate à baliza de Helton, mostrou indícios de que estava armado para incomodar em transições ofensivas rápidas. Não fez uma sequer para amostra.
4 - João Moutinho refinou intervenção e aumentou peso relativo neste FC Porto de Vítor Pereira que gira à volta da bola, valoriza os jogadores como artistas e confirma que defender e atacar são ações ligadas entre si. Uma equipa de circulação segura, assente em toque paciente, por vezes hipnótico e que, não raras vezes, chega a ser deslumbrante. Moutinho continua a alargar influência no coletivo por abrangência, coordenação, versatilidade, intensidade e liderança. Em fevereiro de 2013, o ponto da situação relativo à sua carreira não sofreu alterações: é impressionante que jogue tanto e tão bem; é extraordinário que o faça cada vez melhor. Se dentro de dois anos os pressupostos se mantiverem, mais do que referência de um tempo, será uma lenda eterna do futebol português. É para lá que caminha.
Por muito bons que eles sejam
Há funções numa equipa em que a experiência é quase tão importante quanto o talento
Dando exemplo concreto: é raro uma formação de topo não ter, pelo menos, um defesa-central a rondar os 30 anos. É compreensível que numa tarefa de tanta responsabilidade seja bom ter uma figura dominante, que se imponha perante o parceiro do lado e seja referência para os que o rodeiam. Dier e Ilori têm 19 anos – os dois juntos não atingem a idade com que Maldini ainda era titular do Milan. Não é por eles que o Sporting perde e sofre golos. Mas nenhuma grande equipa aguenta jogar ao mais alto nível com dois centrais adolescentes. Por muito bons que sejam. Como eles são.
O que Jorge Jesus fez de Ola John
Aos 20 anos, um jogador depende muito de quem o orienta. Mesmo que seja uma estrela
Na evolução de um futebolista é tão importante o conselho do treinador como a abertura do aconselhado para receber, aceitar e entender a informação. Ola John deve a Jorge Jesus ser hoje um jogador muito mais completo. Jesus não ensinou o jovem holandês a marcar o golo monumental que lançou a vitória sobre o Leverkusen; o que o general fez ao soldado foi apetrechá-lo para desempenhar papel tático preponderante numa batalha de exigência máxima, principalmente nas ações sem bola – o tal trabalho de sacrifício que as estrelas por vezes negligenciam. E isso faz toda a diferença.
Derrota clara e enigmática
O Barcelona perder já é notícia; perder bem, como aconteceu em Milão, é um caso mundial
Pode mesmo dizer-se que o desaire com o AC Milan transmitiu, pela primeira vez em largos anos, estranha sensação de vulnerabilidade dos catalães: perderam em todos os parâmetros de avaliação do jogo, exceto na posse de bola. O Barça já cedeu perante o Inter de Mourinho ou o Chelsea de Di Matteo mas mesmo nesses momentos maus nunca houve dúvidas de quem era o mais forte. Esta derrota em S. Siro, por números comprometedores, não fechou a eliminatória. Mas foi o desaire mais claro e enigmático de todos aqueles que a equipa sofreu neste ciclo de hegemonia à escala planetária.