1. Precisa da bola para ter paixão e de adversários para ser feliz; as bancadas ressuscitam agora as memórias de infância, quando era o melhor e o mais desejado entre os meninos que jogavam na rua de todos os sonhos. Carlos Alberto é um habilidoso com tendências exibicionistas, corajoso nos riscos que assume e insolente na confiança que extravasa. No seu disco rígido, repleto de soluções individuais que lhe conferem a aura de talento excepcional, o espaço reservado à dimensão do futebol como desporto colectivo (regras, segredos e cumplicidades) estava quase vazio. Tem a sentença lida: só quando mantiver com o jogo a intimidade revelada com a bola, valorizando companheiros e adversários na mesma medida, poderá atingir a grandeza correspondente ao génio que possui.
2. Exemplo de uma escola que exalta o individualismo e a liberdade, tem no código genético a intuição definidora dos grandes jogadores. A convicção de que pode resolver tudo sozinho atira-o para o exagero do recreio, da finta sem sentido prático, dos truques que geram emoções extremas. No modo como utiliza a bola, se enrola com ela e a esconde, está implícito um desafio pessoal com os opositores directos e o objectivo menor de levar por diante uma obra feita exclusivamente de quadros solitários. Se a aventura tem êxito, conhecerá a glória da saída em ombros (aquela que conheceu até hoje); se fracassa por egoísmo, espalha a frustração pelos adeptos, multiplica a revolta pelos companheiros e alimenta a ira do treinador.
3. José Mourinho traçou um diagnóstico perfeito e foi cirúrgico no lançamento do prognóstico; descobriu o diamante e soube logo que teria de o lapidar; ficou seduzido pela arte genuína do prodígio com apenas 19 anos e percebeu que a sua integração não seria instantânea. Em colectivos sólidos, orientados por normas aceites como princípios sagrados; em comunidades assentes num estilo definido e em ideias claras, a introdução da diferença não gera constrangimentos. Carlos Alberto, que chegou ao FC Porto como solução criativa, começou por levantar problemas estruturais. Mourinho assumiu então o papel do mestre: respeitou a natureza técnica do jogador e ensinou-o a abordar o novo meio; responsabilizou-o perante o grupo e, sem pressa, lançou-lhe o desafio do futuro.
4. Ainda em fase de adaptação, Carlos Alberto deu resposta espectacular frente ao Manchester United. Entendeu a importância do momento, comprometeu-se com a causa e usou o talento para coordenar todos os elementos do jogo; seguiu o instinto mas cumpriu o guião definido pelo treinador; moderou a expressão da habilidade mas não danificou o prazer de jogar futebol. Em noite de grande exigência emocional, num cenário de complexidade táctica em que a insubordinação estava proibida, mostrou-se apto a satisfazer a eficácia, a reconhecer méritos ao poder de síntese e a perceber as vantagens de resolver problemas em conjunto. Carlos Alberto foi uma das forças motrizes do carrossel portista e não o corpo estranho que prejudica o seu funcionamento. Prova de que vale sempre a pena acreditar nos futebolistas de verdade.
A ausência de Cissé do Euro'2004
Djibril Cissé, o ponta-de-lança do Auxerre, máximo goleador do campeonato francês e fruto apetecido no mercado, não estará presente no Euro'2004 - foi suspenso cinco jogos pelo pontapé em Mário Sérgio no jogo de Esperanças com Portugal.
É uma ausência de peso relativo para uma França apetrechada com Henry, Trezeguet, Wiltord e Saha. Em Portugal, à falta de Nuno Gomes e Hélder Postiga, teve de avançar Hugo Almeida. Não deixa de ser um bom motivo de reflexão.
PASSE CURTO
Notícias de Aveiro
Juninho Petrolina, principal responsável pelo fulgurante início do Beira-Mar, foi perdendo protagonismo. Primeiro escondeu-se, incapaz de vencer a desinspiração; depois desapareceu do mapa. Na Reboleira deu finalmente notícias animadoras: melancólico, triste, talvez revoltado, marcou os dois golos do Beira-Mar. Ora toma.
Dar nome à surpresa
Evandro é um médio-ofensivo transformado em temível goleador. Jogador de todo o espaço de ataque - hábil a fazer as diagonais das linhas para o meio -, o marcador de onze dos 26 golos do Rio Ave dá nome próprio a uma das grandes surpresas da SuperLiga.
Assim também não
Hélder, acabado de entrar no jogo, não evitou o desvio de Armando. Mas, depois disso, Ricardo Rocha perdeu Demétrios e Moreira não previu qualquer movimento. É só para dizer que Hélder não está sozinho na asneira. Já não é pouco.
Estás perdoado, Benni
O castigo do FC Porto não foi visível (nem tinha de o ser) mas ele sentiu-o no bolso (onde dói mais). Depois do jogo com o Man. United, os adeptos do futebol até estão disponíveis para o acompanhar a Vigo, se for preciso. Eu, em memória daquele golo de cabeça, proponho-me já a pagar uma rodada.