1 George Best, um dos génios mais exuberantes da história do futebol, acabara de aceitar o desafio dos jornalistas presentes na gala de Bruxelas, a 24 de Janeiro de 2000: ia mesmo falar sobre os três candidatos ao prémio FIFA de melhor jogador de 1999. Rivaldo, o vencedor antecipado, entusiasmava-o ("merece a coroação, é herdeiro legítimo das maiores figuras de sempre do futebol brasileiro"); Batistuta estimulava-lhe o respeito pela eficácia ("não existe no Mundo outro goleador como ele"); Beckham ficava reduzido a duas palavras ("bom jogador") e a um sorriso enigmático. Os britânicos, apanhados de surpresa, insistiram sobre o último ponto; Best perdeu a paciência: "Já percebi o que vocês querem ouvir, mas vou dizê-lo à minha maneira: à excepção de não tirar um adversário da frente; não saber jogar com o pé esquerdo; não defender, não resistir a uma carga e jogar sempre à mesma velocidade, Beckham é o melhor jogador do Mundo."
2 Best estava consciente dos pontos em comum (clube: Manchester United; posição: extremo-direito; número: 7; destino: eternidade) mas resolveu cavar uma cratera entre ambos. Poderia ter dito, por exemplo, que o capitão da selecção inglesa é o único jogador da actualidade capaz de administrar um jogo a partir de zonas laterais; que utiliza como ninguém o pé direito para colocar a bola à distância; que é simplesmente divino a marcar livres e cantos; que é participativo, inteligente, solidário e tem o carisma indispensável a uma estrela. Preferiu delimitar o espaço histórico e recorrer à picardia para estabelecer diferenças. Recordadas hoje estas palavras, e interpretando-as livremente, podia ter dito, por exemplo, que era profundo admirador de Sérgio Conceição, um extremo possuidor de todas as credenciais que, na sua opinião, faltam a Beckham para ser o melhor do Mundo. Sobretudo o gene competitivo que o acompanha desde os primeiros tempos da existência.
3 Sérgio Conceição transformou o primeiro impacto da derrota social a que parecia condenado numa fascinante história de amor pela vida e paixão pelo futebol; aceitou as dificuldades da pobreza e resolveu lançar-se à estrada munido de armas ideológicas calibradas para a reivindicação constante; cresceu no limite da rebeldia e assim abordou o desafio da superação, precisamente porque nunca perdeu a memória dos tempos de dor, privação e sacrifício. Quando atingiu o topo da escala, na Hollywood do futebol que é o "calcio", manteve o perfil de soldado de elite que deixa corpo e alma no campo de batalha, em nome da causa que defende. Por temperamento, é um jogador mais útil nas dificuldades que arrastam os conflitos do que no fausto que promove a harmonia, razão pela qual se torna ainda mais incompreensível o seu esvaziamento num Inter que, entre resultados menos maus e simulacros de crise, tem adiado a definitiva rotura entre o presidente Moratti e o treinador Cúper.
4 Sérgio desvaloriza o adorno e prefere as armas do arranque explosivo, da travagem surpreendente e da mudança de velocidade em plena aceleração; quando encara um adversário não alimenta o mistério de como o vai deixar para trás, antes levanta a dúvida sobre o momento de o fazer - ele não engana, ultrapassa; não se desvia, atropela. O resto está na compleição física com que resiste aos choques; no cumprimento das obrigações colectivas e na presença constante, apesar de viver longe do centro de operações. Extremo por vocação, joga com os dois pés e nos dois flancos; é um amigo do golo pelas diagonais que o aproximam da baliza e criam condições para aplicar o forte remate ou pelas maravilhas operadas ao atingir a linha de fundo, quando transforma o simples cruzamento em passe de morte para os verdadeiros especialistas do último toque. Porque se habituou a ir direito aos assuntos, não é um driblador excepcional; porque aceita todos os riscos, espanta pela precisão com que executa a alta velocidade; porque não se contenta com pouco, tem na sua caixa de ferramentas o mais precioso de todos os utensílios: a técnica próxima da perfeição.