Um jovem chamado Moreira

1. Sendo apenas uma etapa da vida, a juventude nunca será uma etapa qualquer: é a fase determinante da actividade criativa; o momento embrionário de uma vocação; o tempo da expressão precoce de um talento. É nessa altura de todos os sonhos e ilusões que o rumo dos homens se traça, primeiro por instinto, descaramento e auto-estima, depois com o recurso às velhas armas que equilibram o embate com a selva em que vivemos: o estímulo da motivação; a disponibilidade para aprender, acumular dados e arrumá-los na memória; a resistência ao deslumbramento dos êxitos parciais; a serenidade face ao erro e a abordagem certa a factores externos, potenciais focos de desestabilização da confiança. De uma forma geral, o futebol tem mantido relação ambígua com a juventude: tão depressa lhe chama fonte de inspiração, como a utiliza para crucificar exageros; tanto a aproveita como alimento da esperança, como para anunciar o apocalipse.

2. Nem todos os casos são iguais, porque o jogo, sendo simples, apresenta uma vasta complexidade de funções. Quaresma recuperou a magia do drible, Ronaldo juntou-lhe abrangência e golo, ambos são adolescentes à conquista do universo; Postiga é herdeiro da alma de ponta--de-lança, menino que aprendeu depressa e enriqueceu o instinto. A explosão de grandes jogadores concebida nestes termos – novidade de uma arte genuína, baseada em exercícios solitários, exuberância e capacidade concretizadora – foi a mesma que serviu, nos últimos 30 anos, a Chalana, Gomes, Futre, João Pinto, Figo, Nuno Gomes e Simão, por exemplo. Hugo Viana já é um caso diferente: representa a excepção da maturidade precoce, o maestro inesperado que dá ordem, estilo e ritmo ao colectivo – com 19 anos, Alves, Oliveira, Pedro Barbosa, Rui Costa e Hugo Leal estavam mais atrasados na viagem.

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3. Mas são os guarda-redes quem mais sofre com a juventude, pelo facto de lhes estarem inerentes características técnicas, tácticas, físicas e psicológicas indissociáveis da evolução humana e do perfil temperamental de cada um. O guarda-redes requer talento como os outros mas a expressão total da sua grandeza depende de factores mais diversificados, como aceitar a escravidão do trabalho e da responsabilidade; valorizar a precisão milimétrica de cada gesto e movimento; aproximar-se da perfeição nos diagnósticos e alhear-se o mais possível do que o rodeia. Nenhum guarda-redes está no auge aos 20 anos, porque nenhum homem atinge o máximo de si próprio com essa idade. Vítor Baía sobreviveu por coragem e genialidade, mas em plena fase de afirmação, na passagem dos anos 80 para os 90, também ele percebeu que o FC Porto procurava alternativa na Europa. Já Costinha e Hilário ficaram pelo caminho, vítimas do sempiterno equívoco: a oportunidade, afinal, não passou de um precipitado lançamento às feras.

4. Em tempo de crise, o Benfica apostou em Moreira e, quase um ano depois, sabe-se que não o fez com total convicção – a imagem de que andava no mercado em busca de alguém mais fiável só agora foi ultrapassada pela definição das prioridades de Camacho (dois laterais e um extremo). Não lhe bastavam as dificuldades da idade, a menor experiência e a desconfiança dos seus próprios camaradas, pontualmente evidenciada ao longo do percurso, Moreira ainda viveu sob a mais dolorosa das pressões: a suspeita de que estava ali a prazo. Restou-lhe, como é costume em circunstâncias semelhantes, a certeza de que se mantinha no bom caminho. Se é verdade que nas Antas foi o réu de um ponto perdido, pagando por exagero pecados de um exército a desfazer-se, no Bessa vestiu-se de juiz e acertou as contas. Quinze dias depois de não ter tremido em Alvalade, devolveu o ponto célebre; confirmou o enquadramento com os companheiros e, mais importante, reclamou um lugar no futebol português: o de guarda-redes que já vale pontos e que muitos mais valerá daqui para a frente.

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