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Ainda o corpo de Miklos Fehér não tinha arrefecido e já os chacais do costume, ávidos de sangue, procuravam afanosamente arranjar culpados. Talvez os médicos, pouco competentes na massagem cardíaca; talvez os maqueiros, pouco diligentes; talvez o INEM, pouco rápido; talvez o hospital de Guimarães, pouco equipado; talvez os bombeiros, pouco preparados; talvez o desfibrilhador, pouco presente; talvez o estádio, pouco seguro; talvez a Liga de Clubes, pouco organizada; talvez o Governo, pouco atento.
Enfim, qualquer coisa servia desde que se encontrasse assunto. Desta vez, porém, a trovoada de atoardas pôde ser anulada porque o pára-raios Valentim Loureiro tirou o dia para, em todos os meios de comunicação, repetir até à exaustão o que era visível ao comum dos mortais: uma tragédia, apenas uma tragédia. O major evitou assim que a mentira, de tão insistente, se transformasse em verdade.
O que Miklos Fehér diria destas personalidades se pudesse voltar a viver
Tiago
Melhores companheiros do que tinha no Benfica dificilmente Fehér poderia ter arranjado. Já no estádio se vira bem a generosidade dos seus colegas de equipa e dos treinadores - Camacho a chorar, Álvaro Magalhães aos pulos quando se acendeu uma réstea de esperança.
Talvez Tiago, com a sua juventude e com o seus ideais ainda intactos haja personificado melhor o que foi a dor pela perda daquele camarada de tantos momentos. Mas que dizer de Argel (impressionante para quem diz não ser ele uma estrela...), de Nuno Gomes, de Miguel, de Andersson, de Bossio, de Fernando Aguiar, de Ricardo Rocha, de Simão, de Hélder, enfim, de todos aqueles irmãos? Fantástico!
LF Vieira
Filipe Vieira tem sido o homem no centro do vulcão. A polémica, a animosidade e a inveja que suscita misturam-se com alguma menor capacidade de expressão, uma aparente falta de dimensão humana e com os erros naturais do seu percurso como dirigente.
A morte de Miki deu-lhe o estatuto que lhe faltava. Numa hora muito difícil - "para não dizer uma tragédia" - Vieira agarrou nos cacos do seu edifício despedaçado, ergueu a bandeira do que considera "a nossa instituição" e devolveu ao Benfica boa parte do capital de grandeza que outros delapidaram nos últimos anos. A dignidade da sua postura confirmou que é na hora da desgraça que se revelam os comandantes. Féher gostaria de ter visto.
Família
Estavam longe de pensar na fatalidade que lhes ia bater à porta. Ninguém morre aos 24 anos. Especialmente quando se tem saúde, um modo de sustento abastado e um capital de esperança invejável. A vida sorria a Féher, a vida sorria aos pais, à irmã, à noiva, aos seus futuros sogros.
De repente, tudo mudou. Chamados a Portugal de repente e pelo pior dos motivos, os familiares do infortunado jogador magiar tiveram de suportar uma dor imensa em terra estranha e fizeram-no de forma admirável. Não houve "cenas", não armaram aos "coitadinhos". Foram lágrimas, simples lágrimas os únicos sinais que aqui deixaram depois de uma perda tão profunda. A família que tu perdeste, Miki...
Olegário Benquerença
Há-de passar muito tempo, talvez todos os anos da sua vida - que se deseja longa - não cheguem para Olegário Benquerença poder esquecer aquela altura sinistra em que Miklos Fehér tombou em campo mesmo à frente do seu nariz.
É que, queira-se ou não, foi o árbitro do Vitória de Guimarães-Benfica a última pessoa a provocar um momento de "stress" ao infeliz avançado. Nada de grave, Miki até sorriu, com um claro sentido de "quero lá saber". Mas Benquerença, que se limitou a cumprir a sua função e que fez já declarações públicas de tocante humanidade, gostaria que tivesse sido outro a interpretar aquele macabro frente-a-frente. Mesmo tendo, isso é certo, o "perdão" de Fehér.
Dias da Cunha
Embora se queira justificar tudo com a onda de solidariedade que une as pessoas nas horas da desgraça, a verdade é que a atitude do presidente do Sporting e dos bravos que o acompanharam - Filipe Soares Franco, José Eduardo Bettencout, Miguel Ribeiro Telles, Miguel Galvão Telles, Ernesto Ferreira da Silva, Manolo Vidal, Pedro Barbosa, Beto, Nélson e Sá Pinto, pelo menos - merece destaque pelo significado que encerra e que é, afinal, muito simples: a vitória da civilização sobre a barbárie.
E se tivermos em conta que os dois grandes clubes lisboetas estão de relações cortadas, maior relevo ganha a presença na Luz da comitiva de Alvalade. A coragem sem caceteiros por trás é a única que conta.
Pinto da Costa
Raro momento este para afirmar o perfil nacional de uma personalidade regional. Mourinho, Reinaldo Teles e Jorge Costa bastaram para mostrar o estofo de campeão instalado nas Antas - e que infelizmente não pega de estaca no resto do País.
E não pega também porque o exemplo nem sempre vem de cima. Se há motivo que me leva a admirar Pinto da Costa é a sua indesmentível coragem: a intelectual e a física, esta, rara num homem da sua idade. Mas há oportunidades que não se podem perder. O líder do FC Porto devia ter vindo a Lisboa prestar a sua homenagem a Fehér, já que ninguém seria capaz de o afrontar. Mas, pelos vistos, Pinto da Costa teve dúvidas que fosse assim. E foi pena.
Perguntas leva-as o vento
1. Por que será que toda a gente reclamou pela falta de desfibrilhadores (que não se verificou) no Estádio de Guimarães e ninguém se revolta contra a efectiva, e criminosa, falta desses aparelhos em centenas de centros de saúde de todo o País?
2. Por que será que um vereador da Câmara de Coimbra saiu a terreiro dizendo que ninguém controla a segurança do estádio da lusa-Atenas - e que ele se limita a proceder como lhe parece melhor... - e ninguém lhe liga nenhuma?
3. Por que será que Santana Lopes compareceu na Luz logo a seguir às homenagens dos companheiros de equipa a Fehér e Ferro Rodrigues optou por enviar um simples representante?
O vento traz as perguntas, o vento leva as respostas...