Tinha combinado uma reunião com ele para assinarmos uns papéis mas, assim que nos sentámos, o meu amigo – mais do que amigo, afinal as nossas mulheres são primas vagas – fuzila-me com esta: "Ó pá, estás-me a lixar um negócio de 10 milhões!"
Eu não queria acreditar que ele me estivesse a fazer uma coisa daquelas. Numa altura em que vários amigalhaços de outros tempos me viravam as costas, a pessoa de quem só podia esperar solidariedade apunhalava-me assim, friamente.
Com aquele comentário brutal, logo a abrir, o resto da reunião já não fazia sentido e eu nada mais podia fazer do que resignar. De nada me servira procurar ser lúcido e justo, saber que a minha acção era seguida por muita gente e que os seus domingos iam ficar mais pobres.
Lutei por dar à terra onde nasci um campo de futebol. Tinha o terreno disponível, faltava-me arrasar aquele bocado de vinha que o meu amigo me tinha cedido. Mas o negócio falou mais alto e ele traiu a palavra dada. Tudo por causa de 10 milhões. De litros de vinho.