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Eu não sei se já escrevi esta crónica - já escrevi pelo menos uma ou duas parecidas - e, sim, sem lhe retirar méritos (que os tem e não me custa dar-lhos), considero que Bruno de Carvalho não tem dimensão para ser presidente do Sporting. É um sujeito perigoso. Cheio dele. Um problema.
Bruno de Carvalho chegou à presidência após um período de trevas. A gestão anterior, e não estamos só a falar de Godinho Lopes, foi terrível para o Sporting. Seria bom haver gravações como as que andam por aí do Conselho Superior do GES, porque deve ser ela por ela - gente que gastou milhões sem os ter e deu cabo do clube, agindo ainda por cima como se de donos do Sporting se tratassem. Não serão todos iguais, mas não é isso que está em causa neste momento. Esse desgoverno abriu caminho para uma personalidade de cariz populista como Bruno de Carvalho. E estava-se mesmo a ver que, mais cedo ou mais tarde, iria tomar conta do clube.
Bruno tem a seu favor as contas em dia e o dedo na ferida em relação a problemas antigos do futebol português. Não é pouco e a esses temas macro é preciso juntar muitos pequenos feitos conseguidos durante um ano e alguns meses de mandato. Mas Bruno de Carvalho está a falhar em toda a linha no futebol. Já tinha falhado o ano passado onde, por esta altura, estavam muito longe de serem boas as suas relações com o então treinador Leonardo Jardim.
O presidente começou no fim da época a colocar a fasquia alta, fê-lo antes de tempo, fê-lo criando uma pressão que uma equipa tão jovem não estava preparada para aguentar. A saída de Jardim foi um alívio para as duas partes e só evitou uma rutura desagradável.
O que se tem passado este ano é uma vergonha. Dirão os sportinguistas: "o clube empata sucessivos jogos em casa e o presidente não está no seu direito de pedir contas?" Está. Está mais do que no seu direito, está no seu dever. Não em público, não da forma como o fez, não como se fosse um ditador que finge que "assume responsabilidades", marca assembleias gerais para sair em ombros e atira com os problemas para cima dos outros.
Bruno de Carvalho fez, pomposamente, esta manobra nas vésperas de um jogo que era difícil, contra o Nacional, e num momento em que dos três grandes o Sporting é o único que está nas quatro frentes. Não ganhou nada, mas não perdeu nada. Mais: depois de ter contratado, de forma duvidosa, uma legião de jogadores no verão, acha agora que a equipa não tem problemas - por exemplo no centro da defesa - e que todas as questões se resolvem na Academia, onde ele aliás tem espatifado uma boa parte do trabalho feito ao longo de muitos anos.
Marco Silva respondeu bem, serenamente. Sobre os jogadores, dada a sua dependência, estamos conversados. O que aí vem não vai ser bonito.
Uma máquina afinada
Não foi por ter ganho o Mundial de Clubes - uma competição menor e feita à medida das equipas europeias, mas o Real Madrid deste ano tem superado as (minhas) expectativas. Eu fui um dos críticos da venda de Di María e da saída, que me pareceu precipitada, de Xabi Alonso. Continuo a achar que foram duas decisões desportivas altamente discutíveis.
O mérito para resolver a difícil equação do fim de agosto pertence a Carlo Ancelotti, que encontrou um desenho tático que lhe permitiu fazer de jogadores eminentemente de ataque, como James, médios com capacidade de recuperação. Acima da tática está - e mais do que reconhecida deve ser elogiada - a sua capacidade para lidar com as estrelas do plantel. O italiano conseguiu meter toda a gente a remar para o mesmo lado, optimizou as qualidades de Benzema, deslocou Ronaldo para o meio sem um lamento e - o que eu achava muito improvável - voltou a fazer de Casillas um guarda-redes em quem se pode confiar, justamente porque confiou nele.
Leonardo Jardim
Leonardo Jardim, pensávamos nós e provavelmente ele também, foi para o Monaco para liderar um ambicioso projeto. No ano passado o clube ficara em segundo lugar e tinha mesmo ameaçado o PSG, este ano, com a recuperação plena de Falcao e com mais dois ou três reforços de grande qualidade, o Monaco seria não só um forte candidato à Liga francesa, como tinha ambições na Liga dos Campeões. No entanto a vida com os russos é assim, hoje duma maneira e amanhã doutra completamente diferente. E, sem saber como, Jardim ficou sem as vedetas, que não foram substituídas, perdeu vários jogos e o Monaco andou pelos últimos lugares. Pois, vistas agora as coisas, com a sua qualidade para construir, a equipa já vai no quinto lugar, continua na Champions e é olhada com respeito. Leonardo Jardim tem um problema, encontra uma solução.
Diego Simeone
El Cholo, que foi um dos grandes jogadores da sua geração, está a afirmar-se também como um treinador de grandes qualidades. 2014 ficará para a história de Diego Simeone e do Atlético de Madrid como um ano de ouro. Não sei, e até me parece improvável, que ganhe o titulo de melhor treinador do ano, mas - sem dúvida - ele foi e continua a ser o quem fez e faz mais com menos. Venceu a Liga espanhola, perdeu por uma unha negra a Champions (imagine-se o que seria o Real Madrid sem a Décima...) e esta época, mesmo com oscilações e muitas mudanças na equipa-base que ele criou e desenvolveu, o Atlético segue na rota do título, desafiando os dois gigantes - Barça e Real. E, a cada novo jogador que chega, ele consegue passar, a sua filosofia de combate. Isso diz muito sobre um treinador.