1. César Luís Menotti, esse grande gerador de ideias do nosso tempo, entende que a porta da área, cuja segurança está atribuída ao médio-centro, pode ser defendida de duas maneiras: com um cão de guarda ou um cão assassino. O primeiro ataca para salvar a casa dos intrusos e, cumprida a tarefa de os afugentar, regressa ao posto de trabalho; o outro, cego de agressividade, vai atrás dos assaltantes até ao fim do Mundo só para lhes dar, pelo menos, uma dentada. Adverte o treinador argentino que, enquanto essa perseguição decorrer, há pelo menos dois ou três ladrões que entram para roubar. Quando criou essa imagem canina, Menotti desconhecia a existência de um pitbull português, que nasceu com instintos assassinos mas está a transformar-se num guarda absolutamente precioso.
2. Durante anos, Petit foi prejudicado pelo desejo de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, razão pela qual nem sempre se encontrava onde fazia falta; perseguia a bola por todo o campo e acabava por causar problemas onde pretendia levar uma solução; o que era sinal comovente de disponibilidade física e solidariedade transformava-se, muitas vezes, em desvios ao bom senso e ao equilíbrio da própria equipa. Sendo verdade que, para lá de guarda ou assassino, o médio-centro também deve ser guia e explorador (como defende Jorge Valdano), Petit está a juntar mais e melhores qualidades para o desempenho da tarefa. Ainda não despojou toda a carga de picardia e contundência que o caracterizou, mas está a munir-se de argumentos que lhe conferem o perfil de referência na posição.
3. Transformado num jogador que cumpre vasto conjunto de critérios exigidos no alto rendimento, Petit é hoje, mais do que nunca, um futebolista de topo, que exerce autoridade absoluta no seu campo de acção e interpreta sem equívocos a liderança inerente às funções que desempenha. O grau de precisão com que decide para manter intacta a estrutura colectiva é elevadíssimo; a segurança de cada movimento feito com a bola é total. E mesmo que o passe curto não seja muito ofensivo (nunca falha mas toca habitualmente para o lado e para trás), é surpreendente a técnica e a visão com que alimenta o jogo longo. De resto, desempenha cada vez melhor o papel que lhe cabe naquela primeira zona de saída ofensiva, onde nada pode ser deixado ao acaso.
4. José Antonio Camacho, para quem “o futebol começa no médio-centro”, ficará satisfeito ao saber que contribuiu para o crescimento de um jogador que recriminou por dispersão. Hoje, Petit corre menos mas corre melhor; gere o esforço racionalmente e coordena a sua acção com as necessidades da equipa. A maioria das decisões conceptuais do Benfica de Ronald Koeman (mais do que no tempo de Trapattoni) são tomadas por ele, quando acelera, trava ou mantém o ritmo; quando joga curto ou longo; com passes laterais ou em profundidade, à esquerda ou à direita. É esse talento de pensar sempre antes de executar que lhe permite ser oportuno e engenhoso em quase todas as opções que toma. É esse processo gradual de aprendizagem que o apetrechou da sabedoria indispensável para se tornar um caso à parte entre os médios-centro portugueses.
Flanco direito
O MELHOR LATERAL-ESQUERDO PORTUGUÊS. O FC Porto interessou-se por Miguelito (e eu acho que fez bem); mas tal como quis também desistiu (e, por exclusão de partes, acho que fez mal). Independentemente da lesão de César Peixoto, e de Cech ser ainda uma incógnita, Miguelito justifica o interesse portista com independência de razões exteriores à sua capacidade: ser o melhor lateral-esquerdo português da actualidade devia ser suficiente. Mas, pelos vistos, não é.
PARA LÁ DOS PENÁLTIS. No Restelo, Sá Pinto começou por ter sorte, quando a grande penalidade sobre Romeu deu em nada; mas acabou por ter azar, ao devolver o desperdício num penálti cometido sobre ele. Entre uma coisa e outra, melhor dizendo, do princípio ao fim, desempenhou o papel que melhor se adapta às suas características: foi exemplo de entrega numa equipa cada vez mais órfã de referências maduras e dependente da inspiração dos seus jovens.
JOGADOR DA CABEÇA AOS PÉS. É um avançado rápido, intuitivo, esperto, explosivo, que tem boa relação com o jogo e leva o golo nas veias. Frente ao FC Porto, Semedo assinou 45’ deslumbrantes, como elemento de um trio (ele, Manu e Rui Borges) que dinamitou a defesa azul e branca. Recuou na segunda parte para defesa-esquerdo e passou ele a correr atrás dos adversários. Não pediu explicações, não se lastimou, simplesmente preferiu continuar a ser o melhor em campo. Um jogador de corpo inteiro.
E se ela não quiser atravessar?
Se o jogador se queixa e os médicos encontram motivo para as dores, quem somos nós para duvidar? Acreditemos, pois, e sem levantar suspeitas, que calhou assim e pronto – pode ser que Bruno Vale já possa defrontar o Boavista. Depois de tantos exemplos perversos, é preciso concluir que essa coisa de obrigar os jogadores emprestados a defrontar os clubes de origem é como decretar a qualquer cidadão que tem de ajudar as velhinhas a atravessar a rua. Pergunto: e se a velhinha não quiser mudar de passeio, continua a ser obrigatório ajudá-la?