1 - É um jogador sem idade e a súmula da evolução do médio-centro neste meio século em que o futebol se tornou exigente e profissional. Frank Lampard funciona como um dos alicerces da manobra defensiva e a luz que ilumina o ataque; o jogador que dá equilíbrio e simplicidade aos processos de jogo (com e sem bola) e se torna decisivo na zona de definição, mercê de técnica sem pompa, condução segura, inteligência superior e condições físicas exuberantes. Maneja perfeitamente a bola (articulação motora, qualidade de passe e remate forte), o tempo (ritmo altíssimo acompanhado de visão e serenidade) e o espaço (físico poderoso nos duelos individuais e implacável na pressão sobre o adversário). Mas toda a bagagem deste futebol sumptuoso foi enriquecida pelo farol das instruções do seu treinador, o homem que lhe ofereceu dimensão mundial e a esperança de um lugar entre os deuses.
2 - José Mourinho revelou, mais uma vez, o domínio dos princípios básicos da sua actividade: sabe de jogadores, reconhece a importância do balneário e tem sensibilidade para o gerir. O treino, a ciência, o estudo, o modelo, os princípios e a táctica vêm depois. Ao escolher Lampard para seu cúmplice directo, principalmente quando o apito do árbitro cava um fosso entre comandante e comandados, repetiu o que outros grandes generais do futebol fizeram ao longo dos tempos: Rinus Micheles e Stefan Kovacs (com Johan Cruijff); Matt Busby (com Bobby Charlton); Arrigo Sacchi (com Frank Rijkaard); Marcello Lippi (com Paulo Sousa e Zinedine Zidane); Alex Ferguson (com Roy Keane e Paul Scholes) e Johan Cruijff (com Josep Guardiola), entre outros.
3 - Frank Lampard encerra o fascínio do estratego em plena acção futebolística, na qual representa a extensão filosófica de quem concebeu o plano. É um treinador com bola no pé, não por subserviência mas por convicção; não para fazer o jeito ao mentor mas por acreditar cegamente naquilo que ouviu durante dias, semanas, meses a fio; não para mostrar que é obediente e dócil mas por entender que pode dar funcionalidade à ideologia que orienta o grupo. Quando entra em campo e desperta todos os sentidos, ele é o garante da memória colectiva, da atenção que todos devem aos pormenores e o sinal de alerta permanente perante erros conceptuais. Jogadores como ele são maestros talentosos fora do lugar; são líderes escondidos no meio de uma orquestra que os segue com reverência, esteja ele onde estiver.
4 - Frank Lampard é um diamante raríssimo que José Mourinho lapidou até próximo da perfeição. Nele brilham valores tão diversificados e difíceis de conciliar como liderança e influência; respeito, voz e intimidação; compromisso, solidariedade e abrangência; organização, técnica e golo. Por isso é um clássico à espera das grandes vitórias para potenciar a carreira em termos individuais e tratar por tu os parceiros de estrada: a pequena elite dos maiores artistas da bola que o planeta conhece. Não sendo o mais virtuoso (esse título fica bem entregue a Ronaldinho Gaúcho), é o jogador mais consistente, completo e decisivo do futebol actual, à volta de quem nasceu, cresceu e estabilizou a mais extraordinária equipa da Europa em 2004/05.
FLANCO DIREITO:
Tanta história num só tiro
O tiro de Bruno Ribeiro que derrotou o Boavista recordou a grandeza do passado vitoriano; acentuou o poder representativo do V. Setúbal junto do povo setubalense e anunciou que, mesmo em crise, este é um clube com futuro garantido. Pelo meio, devolveu um jogador marcado pelo sofrimento ao lugar que merece: a História do emblema que ama desde a infância – o primeiro jogador sadino a atingir os seniores vindo dos infantis.
Mensagens de esperança
No meio do desespero que aumenta a cada semana, Beto transporta a mensagem de esperança do Beira-Mar, projectando o optimismo a partir de mísseis de longo alcance que, vai-não-vai, acabam no fundo da baliza. Se nos lembrarmos que fez golos decisivos nas vitórias em Setúbal, no Dragão e agora frente ao Boavista, vejam só o que este rapaz vale e o que representa para o sonho aveirense.
O melhor lateral-esquerdo da SuperLiga
Injustiçado pela resistência externa ao fenómeno bracarense; ofuscado pelo esplendor do craque Wender; engolido pelo acerto colectivo de uma equipa extraordinária que já conquistou os adeptos neutros na luta pelo título, Jorge Luiz entra na recta final da época em condição física e técnica fora do comum. Ele tem sido o melhor defesa-esquerdo da SuperLiga; o mais brilhante e espectacular; o mais influente e regular. As grandes potências não têm melhor. Nem sei mesmo do que estarão à espera...
UMA QUESTÃO DE INCOMPETÊNCIA
Podemos passar uma época inteira a falar de erros que valem resultados; a fazer contas de benefícios e prejuízos; podemos até admitir que o sistema existe, é desonesto e é potencial caso de polícia. O pontapé de Pedro Emanuel em João Pinto e a agressão de Sousa a João Alves colocam as coisas no lugar. Nos dois casos, os árbitros (internacionais) olharam, viram e sancionaram a infracção. Um ficou-se pelo amarelo, o outro limitou-se a mandar chamar a maca. Isto tem um nome e não é desonestidade. Não sei se têm a mesma opinião, mas eu chamo-lhe incompetência.