1. Das brumas de uma época marcada pela agitação; entre algazarras insuportáveis e incompreensões mútuas que fizeram rolar cabeças; digeridas transformações estruturais e derrotas desportivas inesperadas, Alvalade viu nascer mais uma bela história de amor pelo jogo e de luta por uma vida melhor. Habituado à reivindicação permanente, Nani reclamou lugar numa equipa a desfazer-se aos poucos, preparado para resistir ao terramoto emocional da chegada ao laboratório de perversão em que está transformado o futebol de hoje. Para quem se habituou a viver com privações, o percurso do menino nascido em Cabo Verde e que há dois anos actuava no Real Massamá conhece agora os primeiros capítulos de prosperidade. Jorge Valdano resumiu numa frase a importância destes jogadores: “Com eles podemos ir a qualquer lado.”
2. A calma revelada no lançamento ao mais alto nível, longe de ser a inocência de jovem inexperiente, é a prova do cinismo com que procura tirar partido de distracções alheias, aproveitando o facto de ainda não o reconhecerem como perigoso foco de desestabilização. Nani é insolente em demasia para ser bem intencionado com os marcadores directos e já viveu o suficiente para resistir sem sofrimento às tormentas que afectam a equipa. Sem trair a vocação solitária que o caracteriza (as iniciativas individuais são brisas de ternura que refrescam o espectador), já mediu a importância do colectivo em muitas missões de desenvolvimento do jogo, prova de que o tempo é um aliado no caminho até atingir o estatuto de figura maior do futebol português.
3. Prodígio de intuição e clarividência, Nani exerce tremendo magnetismo sobre o jogo. Se o fascínio da aparição começou na desfaçatez com que impôs os seus argumentos, o mais impressionante foi ter prosseguido com o domínio absoluto do que chegou a parecer uma fúria incontrolável. Relativizada a vontade de mostrar tudo em pouco tempo, é agora mais simples identificar os pontos fortes daquele futebol em que os ziguezagues transportam intenções claras e no qual ao início das acções raramente corresponde o final esperado. Aliás, é o modo como sai de cada movimento, utilizando um simples toque ou finta de corpo, que o torna precioso como alimentador do processo de ataque. É essa capacidade para dar sentido prático à habilidade e associar visão e técnica refinada que o tornam especial.
4. Johan Cruijff disse, em tempos, que qualquer um sabe jogar futebol se tiver cinco metros para receber a bola. A principal arma de Nani é o talento de, por muito menos, criar latifúndios a partir dos quais gera as explosões que o identificam como fantástico explorador de espaços. Nessa altura, o perigo torna-se real, esteja perto ou longe da área; à direita, à esquerda ou ao meio; disponha de muita, pouca ou nenhuma ajuda dos companheiros. Com esse perfil, Nani estará sempre exposto a recriminações pelo excesso de individualismo e será alvo de alertas insistentes para os riscos do recreio nocivo. Outros dirão que não é um jogador perfeito e tem ainda muito que aprender. Façam apenas o favor de reconhecer que, sem esta gente impulsionada pelo sonho e iluminada pela inspiração, o futebol não teria chegado a lado nenhum. Podem ter a certeza.
Um prodígio de clarividência
Sim, é verdade, Nani tem ainda muito que aprender. Façam apenas o favor de reconhecer que, sem esta gente impulsionada pelo sonho e iluminada pela inspiração, o futebol não teria chegado a lado nenhum.
Entre a cegueira e a alucinação
Renato cabeceou, Ricardo tirou a bola de dentro da baliza, mas o assistente não conseguiu observar o que todos viram no estádio (um escândalo); César Peixoto rematou com o pé direito, a bola bateu na barra, caiu para cá da linha de golo, mas outro assistente viu aquilo que não aconteceu (uma vergonha).
O efeito dos erros foi idêntico (ambos se reflectiram no resultado), mas há diferenças entre cegueira e alucinação. Sendo doenças preocupantes para um juiz, a segunda é de gravidade superior. Mais que não seja porque tem cura mais problemática.
A vitória dos desenhos animados
O filme era interdito a menores e no elenco estavam alguns dos melhores actores do Mundo. Num cenário bélico de tensão máxima e paixões exacerbadas, o futebol celebrou a afirmação dos desenhos animados, que corromperam com magia o desenrolar da história, ditando mesmo o seu final. Ronaldinho ganhou, ali mesmo, o Óscar de melhor actor da década, atribuído pela academia do Bernabéu. Nunca se tinha visto uma coisa assim.
Contra a estatística
A perder por 0-1 com o Benfica, Jesualdo Ferreira escolheu Maxi Bevacqua como cartada para tentar a reviravolta no marcador. “Um disparate”, gritaram os adeptos mais hábeis a lidar com números, atentos ao facto de, em 10 jogos, o ponta-de-lança não ter marcado um golo sequer. No fim, o argentino estoirou com as estatísticas, marcou por duas vezes e, contrariando o perfil apagado que o caracteriza, acabou como herói na noite.
O “catenaccio” segundo Koeman
O Benfica defrontou o Lille com nove jogadores de tracção à retaguarda – um guarda-redes, quatro centrais (em linha, como nos matraquilhos), dois laterais a fazer de extremos e dois médios defensivos.
Koeman abordou um jogo em Paris, a contar para a Liga dos Campeões, perante 45 mil portugueses, como se estivesse no deserto, alheio a emoções e indiferente ao prestígio do clube.
Recuperar o “catenaccio” é mau; que a ideia tenha partido de um discípulo de Cruijff é quase um sacrilégio.