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1. No estilo pesado e sóbrio não cabe a exuberância dos gestos nem a expressão das emoções fortes que o futebol desperta; à inteligência dos movimentos e acerto de cada intervenção corresponde a imagem melancólica de um solitário em busca de companhia e sempre preocupado com o bem-estar dos outros. Tomo Sokota é uma permanente contradição: nunca se esconde mas gosta de parecer distante; assume como ofício a disponibilidade para dar o corpo ao manifesto mas surpreende com requintes impensáveis para tanta austeridade; aceita a luta com os defesas, porque tem músculo e pulmão, mas é capaz de acrescentar o domínio perfeito, o passe criterioso e o remate à baliza. Fazê-lo com os dois pés e com a cabeça é o argumento final de um jogador de excepção.
2. Fruto de estrutura morfológica incompatível com os valores explosivos da agilidade, do arranque e da mudança de ritmo, recorre à boa coordenação motora para defender o espaço: se perde por falta de espontaneidade, recupera pela execução perfeita; se não ganha por rapidez, usa o tronco forte para guardar entre os pés o cobiçado tesouro. Sokota utiliza o corpo como lugar de colisão mas também como forma de escapar ao choque e aproximar-se do destino com mais probabilidades de êxito. Na zona onde se confundem médios que têm o golo incorporado e avançados com desejo de participar, ele é o ponta-de-lança ainda em défice com a estatística mas cada vez mais próximo de nos conquistar. O seu papel no filme do passado domingo, na Luz, é digno de um Óscar.
3. O futebol está cheio de equipas que abreviam a falta de soluções criativas usando o caminho do pontapé para a frente - compensam a escassez de talento no meio com centímetros a mais na área. O passe longo, feito de olhos fechados e por aproximação, alivia o sufoco e leva o centro de decisões para o outro lado do campo, mas é só um recurso. A bola sobe e quando cai pode ser nossa ou deles; dar golo ou constituir uma perda de tempo; ser livre a favor ou contra; pontapé de canto ou de baliza. O futebol torna-se, então, um jogo de sorte e azar, legítimo se for em desespero de causa (Argel como avançado frente ao Nacional), altamente discutível se fizer parte de um plano prévio para atingir os objectivos - e o croata deu sentido ao pecado conceptual.
4. Sokota representa a luta contra o infortúnio e a superação da dor imensa; é exemplo de resistência à dúvida e um sublime vencedor do sofrimento; a força da Natureza que transformou a carreira em perigo num cenário de futuro risonho. A sua história dava um filme de amor à vida e paixão pelo futebol, daqueles que convencem pelo enredo e derrubam por comoção. Com o FC Porto entrou mesmo na memória colectiva: raras vezes o abandono de uma simples peça do tabuleiro determina tão claramente a sorte de um jogo. Sokota não merecia a saída discreta e silenciosa, mesmo que tenha sido o espelho da indiferença habitual às sensações que provoca e traduzisse o momento infeliz para as hostes encarnadas: na sua viagem prematura para as cabinas seguiu também a esperança de o Benfica chegar à vitória. Não havia, de facto, motivos para festejar.
Os primeiros sinais de Scolari
O modo como Scolari vai conciliar os interesses do Euro'2004 e do Europeu de Esperanças é um mistério apetecível. Na última convocatória estão os primeiros sinais da tendência: Tiago, Viana e Ronaldo nos AA, Quaresma nos Sub-21, Postiga na expectativa de uma coisa ou outra. Na corrida dos extremos, que se prevê das mais renhidas, Figo, Ronaldo, Simão e Boa Morte partem em vantagem sobre Sérgio Conceição e Quaresma. Os próximos meses vão trazer, por certo, mais notícias.
Passe curto
COMO OS MAIORES. Carlos Martins pode jogar mais ou menos no Sporting, o problema não é esse. Estranho é sentir que a avaliação do potencial e o prognóstico quanto à sua evolução ficam aquém do talento que evidencia. Quando agrega confiança ao seu jogo de vistas largas, passe preciso e remate fácil é tão grande como os maiores. Viu-se em Setúbal.
SATISFAÇÕES IMEDIATAS. Hugo Henrique deu satisfações instantâneas à chegada ao Restelo. Em jogo e meio fez três golos, um deles ao V. Guimarães. A precipitação de Palatsi foi mais relevada, façamos agora toda a justiça ao avançado: o chapéu foi perfeito e lindo de morrer. Essa é que é essa.
VAI LONGE, O RAPAZ... Quem viu o Molde-U. Leiria jura que assistiu a um acto de crime organizado cometido pelo árbitro Viktor Kassai. O húngaro ainda não está entre a elite da UEFA, mas já apitou o Portugal-Inglaterra. Vai longe, o rapazinho.
FALTA A PRISÃO. Bilro é a prova de que o fascismo ataca em todas as frentes. Diz o presidente da U. Leiria que o seu ex-capitão mudou 180º, justificando assim um processo indigno, manipulado, prepotente, miserável.... Ao qual só falta, para ser totalmente pidesco, a prisão, a tortura e a clandestinidade.