O êxito de um sistema tático depende, essencialmente, da qualidade dos jogadores que um treinador tem à sua disposição e do modo como os atletas conseguem interpretar as ideias do técnico. Não há fórmulas mágicas. Em Portugal, já vimos equipas vencer campeonatos jogando em 4x3x3 (Vítor Pereira), em 4x4x2 (Jesus) ou até em 3x3x4 (Co Adriaanse). E lá fora, o Barça de Tito Vilanova ganhou o campeonato espanhol sem alinhar com um ponta-de-lança fixo e a Juventus de Antonio Conte conquistou o scudetto com uma tática que incluía três centrais. A dinâmica que se imprime ao jogo é que faz toda a diferença.
Aquilo que na teoria parece certo, nem sempre se consegue cumprir com a mesma eficácia quando é colocado à prova. Se os jogadores não se sentirem confortáveis nas funções que lhe são confiadas, se não conseguirem potenciar as suas capacidades e ficarem amarrados a um posicionamento estático, o coletivo acaba por se desarticular, dando espaço aos erros e à desorganização. Os frouxos arranques de temporada de FC Porto e Benfica, embora tenham origem em problemas diferentes, acabam por padecer de um mesmo sintoma: a falta de dinâmica dos jogadores dentro de campo. Em termos gerais, ambas as equipas parecem sofrer de uma letargia que as tornou menos mortíferas no ataque e mais permeáveis na defesa.
Comparando com o ano anterior, à 12.ª jornada, as equipas encontram-se igualmente empatadas, mas com menos 5 pontos e a liderança perdida. O Benfica tem menos 10 golos apontados e mais 2 sofridos, e o FC Porto também marca menos (8) e cede mais (2). Como mostram os números, estão a faltar golos a águias e dragões, cada vez mais dependentes dos seus matadores, Cardozo e Jackson, para concretizar oportunidades de golo. E a falta de produção ofensiva acaba por surgir devido a uma espiral de problemas que afetam toda a equipa. Face à inércia atacante e falta de profundidade para criar lances de perigo, os jogadores têm tendência para tentar resolver em lances individuais, desposicionando a equipa, algo que a contagia na hora de defender, falhando nas compensações e abrindo a porta a desconcentrações fatais.
Face à maturidade e experiência dos jogadores de FC Porto e Benfica, a frequência destas falhas defensivas era impensável. Os dois golos que os dragões sofreram em Madrid, fruto de desatenções infantis, dificilmente teriam acontecido noutras alturas. Assim como os golos que o Benfica consentiu em casa frente ao Arouca.
Anível europeu, onde o índice de exigência é muito maior, estas fragilidades acentuaram-se e foram ainda mais visíveis. Podemos admitir que faltou sorte, sobretudo às águias, que fizeram 10 pontos e não conseguiram passar aos oitavos-de-final, mas a falta de estrelinha não explica tudo. Há erros que se tornam decisivos quando se trata de alta competição. A eliminação da Liga dos Campeões das duas melhores equipas portuguesas, assim como das três equipas lusas que estavam na Liga Europa, acabou por ser natural e deve fazer-nos refletir sobre o patamar de qualidade em que se encontram atualmente os clubes portugueses.
Com as peças no seu devido lugar, não tenho dúvidas que Benfica e FC Porto ainda nos vão proporcionar momentos de grande futebol durante esta época. Mas está a chegar a altura de reagir e melhorar. Há que motivar e mobilizar os jogadores de que podem, e devem, render mais. E essa dinâmica também se trabalha fora das quatro linhas.
O CRAQUE
Português no calcio
Há um jovem talento português que começa a despontar no campeonato italiano. Bruno Fernandes foi notícia esta semana pelo grande golo que apontou na Udinese, que esta época pagou 2,5 milhões de euros aos também italianos do Novara para obter o seu concurso. Típico número 10, organizador de jogo e habilidoso, que sabe jogar nas alas, Bruno saiu muito cedo do Boavista sem que nenhum dos grandes portugueses lhe metesse a mão. Agora está debaixo de olho de equipas como Juventus e Inter Milão e até já o apelidam de “novo Rui Costa”. Para seguir com muita atenção.
A JOGADA
A boa entrada de Couceiro
O regresso de José Couceiro ao Vitória de Setúbal está a ser bastante positivo. Há dois meses no cargo, o treinador já leva nove partidas sem perder em nenhuma competição e tirou a equipa de um desconfortável 14.º lugar, estando agora bem mais distante das posições de descida, no nono posto da Liga. O bom trabalho do técnico merece ser realçado, já que o impacto na equipa foi imediato. Mas parte dos louros também devem chegar a José Mota, que, apesar de não ter tido resultados, montou um plantel de imenso potencial com poucos recursos.
A DÚVIDA
Walter seria uma solução?
Considerado um dos melhores jogadores no último Brasileirão, o avançado Walter foi uma das estrelas do Goiás e ajudou a sua equipa a quase se qualificar para a Taça dos Libertadores. Acusado de estar fora de forma e com peso acima do ideal, a verdade é que marcou 18 golos na última época. Mesmo no FC Porto, onde foi pouco utilizado, apontou 16 golos em 33 jogos. No passado recente, a par de Ernesto Farías, terá sido o avançado suplente do FC Porto com maior produtividade. Tendo ainda contrato com os dragões e olhando para o atual plantel portista, será que o brasileiro não tinha lugar no grupo?