1. Quando pegou na bola à saída da grande área e deu início à cruzada, Miguelito era só a imagem do inconformismo face ao crescente sufoco do Sporting; no seu impulso visionário, iniciado a longa distância da baliza de Ricardo, estavam à vista as marcas da urgência - aliviar a pressão por uns instantes - e bem escondidas as verdadeiras intenções. À entrada nos terrenos proibidos do meio campo leonino, limitou-se a pedir ajuda a um amigo (Jaime) e com ele fez um pacto: emprestou-lhe a bola e acelerou para ir buscá-la mais à frente. Quando já levava 70 metros de correria desenfreada e o coração batia a mais de 150 pulsações por minuto, percebeu que estava encurralado numa zona com saída problemática. Poucos poderiam prevê-lo, mas estava a ser concebido um momento grande da SuperLiga 2003/04.
2. Angel Cappa, consagrado treinador argentino, sintetizou com palavras sábias a ideia tantas vezes adulterada: "O atleta, quando chega, acaba; o futebolista, quando chega, começa". Miguelito uniu as pontas do conceito: chegou, porque é atleta, e começou, porque é jogador da cabeça aos pés. A forma como limpou Tinga do mapa - o disparatado carrinho do brasileiro numa situação de risco dá que pensar -, provocou o assombro; o modo como respirou fundo, progrediu um/dois metros, levantou a cabeça e executou o passe milimétrico para Evandro fazer o golo, pertence ao catálogo de um enorme jogador. Nenhum lateral-esquerdo do campeonato português está habilitado a assinar obra igual: uns porque não chegavam a tempo; outros porque, chegando, não teriam argumentos para, depois, executar com aquela perfeição.
3. Miguelito tem versatilidade para jogar em todo o flanco e não se perde no interior do campo; a sua dinâmica ofensiva é notável, a qualidade do passe também e o drible tem as marcas de jogador com processos simples. Esses argumentos criativos servem de complemento à precisão das marcações, ao acerto das dobras e ao rigor do posicionamento em acções defensivas. Sabe o que faz porque percebe a essência de cada acção; nunca entra em pânico porque se sente confortável em qualquer espaço. O tempo tem sido um aliado e, aos 23 anos, é uma referência do Rio Ave de Carlos Brito, o treinador que lhe deu confiança e dele fez um dos melhores defesas-esquerdos portugueses.
4. Na estrela de Miguelito brilham as pontas de trabalho, seriedade, concentração, empenho e vontade de aprender; ele é o menino da rua que recorreu à bola para combater dificuldades sociais e tem passado a vida a enriquecer-se com argumentos técnicos e tácticos. O seu êxito a partir de estrutura genética pouco favorável é uma prova notável de inteligência; o modo como desafiou a Natureza pouco generosa e venceu o destino é um exemplo extraordinário para qualquer desportista. Oriundo de Caxinas, como André, Paulinho Santos e Postiga, Miguelito é mais um miúdo que o futebol roubou ao mar. E o jogador de eleição que recupera a verdade indiscutível de que o talento natural, sendo importante para o sucesso, não é tudo para o alcançar.
Passe curto
Arte de Wender. Ganhou espaço porque dominou bem a bola; conquistou posição porque foi inteligente a enquadrar-se com o pé esquerdo; mudou de velocidade e disparou um tiro sensacional. Foi assim que Wender marcou o golo do Sp. Braga no Bessa.
Um dos golos do ano. Era um lateral-esquerdo que jogava em demasia e Vítor Pontes deu-lhe um lugar no meio-campo, onde a qualidade técnica se sente mais livre e confortável. Jogador fino, de vistas largas, com um pé esquerdo prodigioso, Edson marcou em Alverca um dos melhores golos do ano. E ainda deu outro como bónus.
Bom prenúncio. Nuno Gomes viveu situações atípicas em Aveiro: foi suplente (anormal) e entrou para resolver; resolveu (faz parte do ofício) com um remate de fora da área, colocado, ao ângulo inferior direito (lembram-se de o terem visto marcar um golo assim?). Que seja um bom prenúncio para San Siro.
Vida de guarda-redes. Paulo Jorge foi monstruoso frente à Académica. Depois de cometer milagres, entre os quais a defesa de um "penalty" apontado por Joeano, foi este quem levou a melhor. O brasileiro aproveitou uma em dez ocasiões e saiu de Barcelos como herói. É ingrata a vida de guarda-redes.
Exemplos do temperamento latino
Quando o nome de Carlos Queiroz aparece em destaque na imprensa espanhola, nunca é por boas razões - é porque o Real Madrid perdeu e se acontece, como agora, perder duas vezes seguidas, então a sua presença chega a tornar-se excessiva. Em Portugal, o mesmo acontece com Fernando Santos. Passou dezanove jogos sem perder mas quando a derrota apareceu - está bem que foram 0-4 em Vila do Conde - ressuscitam-se os velhos fantasmas. Meros exemplos do temperamento latino.