Vencer a dúvida

VIDA – O futebol é o espelho da vida e o reflexo da sociedade em que vivemos, cada vez menos humana, cada vez mais excessiva na forma indigna como alimenta os sentimentos primários das pessoas, na esmagadora maioria em prol de objectivos inconfessáveis e quase todos ligados ao poder económico.

Porém, há verdades de sempre que os novos tempos não alteraram. Por exemplo: os jogadores em fase de afirmação retribuem com talento a confiança dada por treinadores e adeptos, do mesmo modo que acentuam o nervosismo e se afastam da rota que lhes está destinada a cada manifestação de dúvida.

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Ao cabo de dois anos no Benfica, Miguel pode celebrar a grande vitória da sua carreira até ao momento: superar à custa de talento, a desconfiança, os assobios e todo o género de reclamações que ouvia das bancadas, sobretudo na Luz.

DESTINO – Jupp Heynckes, José Mourinho, Toni e Jesualdo Ferreira nunca tiveram muitas dúvidas quanto ao essencial: Miguel é um fantástico projecto futebolístico, um jogador com escola, suportado numa história sólida nas camadas jovens e há muito definido como sendo um jovem com futuro risonho pela frente.

O menino que procura refúgio no silêncio e na expressão triste para se defender dos ataques do exterior, soltou-se de repente e retomou o destino para o qual, aparentemente, a vontade própria e o talento já tinham deixado de contar.

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Enredado na teia concebida por quem, à falta de coragem para penalizar Zahovic, Mantorras e Drulovic, o minimizava com assobios e toda a gama de desconsiderações que o faziam sentir mal-amado, Miguel recuperou a alegria e a magia, encheu o peito, cresceu vários centímetros e tornou-se um potencial reforço para o futebol português.

SURPRESA – O Portugal-Brasil de há uma semana trouxe dados que permitem aproximar-nos das ideias de António Oliveira.

E se o mais importante foi recuperar a esperança colectiva abalada depois da derrota com a Finlândia, em termos individuais as considerações são mais vastas: claro que a titularidade de Ricardo é uma boa pista; ao fim de cinco anos, Beto perdeu para Jorge Andrade o estatuto de primeira alternativa à dupla Fernando Couto-Jorge Costa; Abel Xavier entra na recta final em vantagem sobre Frechaut; Caneira voltou a ser chamado, confirmando a importância da polivalência nestas alturas de escolher gente para um Mundial.

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Mas a conclusão sem enquadramento na realidade definida pelos últimos dois anos, a única verdadeiramente surpreendente, foi assistir ao nascimento de mais um indiscutível: Paulo Bento.

PAULO BENTO – Não era líquido que o sportinguista fosse opção para o Mundial, como resultado da sensação exterior (porventura errada) de que o seleccionador não tinha total apreço pelas suas qualidades.

Podia ser uma conclusão precipitada, sem fundamento, mas desde o Euro-2000 que o médio deixou de ser primeira opção, primeiro pelo castigo da UEFA que o manteve afastado até Fevereiro de 2001, depois pela forte e justificada aposta em Petit.

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O passado recente não era animador: jogara os últimos cinco segundos em Barcelona e ficara de fora frente à Finlândia. Num jogo muito condicionado pelo desaire no Bessa, Oliveira decidiu aproveitar o particular como um teste de alto risco.

Ao dar a titularidade a Paulo Bento, confirmou que não é preconceituoso; ao jogar como o fez, Paulo Bento voltou a mostrar que é o melhor médio-centro da I Liga 2001/02. E todos ficaram a ganhar.

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