Carlos Ribeiro

Carlos Ribeiro Professor Universitário

A cor da espera

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Dou por mim a caminho de casa, a ouvir falar do próximo jogo, sem conseguir fazer o que antes me saía tão naturalmente: ganhá-lo por antecipação. 

Um coral pode branquear e continuar vivo. Sob stress, pode perder grande parte das microalgas que vivem em simbiose nos seus tecidos. A recuperação é possível, mas não está garantida.

Lembro-me disso ao pensar no Vitória. Continuo a fazer contas, a procurar o horário, a organizar a vida à volta de noventa minutos. Tudo no lugar. Só a ilusão parece faltar à chamada. 

Passámos na Taça. Cumpriu-se a obrigação diante de um adversário de outra dimensão. Agora regressa o campeonato e custa-me repetir que é desta, que o próximo jogo será o princípio de tudo. Há frases que, de tanto serem adiadas, acabam por perder o sentido. 

A derrota ainda nos faz discutir. A desilusão vai-nos tornando mais calados. E assusta-me esta capacidade de começar a aceitar aquilo que antes me parecia intolerável. Talvez seja uma forma de defesa: esperar menos para sofrer menos. Mas ninguém se fez vitoriano para aprender a não esperar nada.

Nos corais, sobreviver ao branqueamento não significa estar recuperado. Também nas bancadas, continuar presente pode esconder muita coisa. Continuo aqui. Talvez a ilusão regresse já esta sexta-feira e eu volte para casa com essa impaciência antiga de quem já só pensa no próximo jogo.

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