Gustavo Silva
Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

A importância de pessoas extraordinárias na vida e no Benfica

Se existe um elemento que destaco nesta suprema aventura que é viver, será o privilégio de ter vindo a conhecer pessoas extraordinárias. Não na aceção arrogante e desviante de Raskólnikov no "Crime e Castigo", mas na simplicidade de serem genuinamente e naturalmente extraordinárias.

Uma dessas pessoas, de seu nome Rodrigo Carreira, encontra-se no hospital há várias semanas gravemente ferido após ajudar um desconhecido. Foi, aliás, precisamente com ele, que oferecemos um exemplar do "Crime e Castigo" a um dos criminosos mais desviantes e com "postura raskólnikov" que tenho conhecimento. Um indivíduo inteligente, mas que se julgava superior e que, por isso, na sua soberba (como Raskólnikov), entendia que tudo podia fazer de forma impune e jamais seria detido. Enganou-se.

Foi nessa altura que percebi, de forma cabal, que alguém extraordinário é muito mais que uma soma de capacidades ou atributos intelectuais relevantes. É ter aquele brilho "especial que sabemos encontrar quando nos deparamos com ele. Obrigado, Rodrigo, por (mais) essa lição.

Sendo o Benfica uma parte essencial da minha vida, também me tem permitido conhecer algumas pessoas extraordinárias e surpreendentes, que nos fazem acreditar que estava destinado a cruzarmos caminhos. Desde o antigo terceiro anel, aos pavilhões das modalidades do antigo estádio, passando por idas ao estrangeiro ou assembleias gerais, o Benfica tem-me dado a conhecer, de facto, pessoas extraordinárias.

Uma dessas pessoas chama-se João Castanheira. O João, para além de fervoroso benfiquista, é uma pessoa simplesmente extraordinária. Sem maneirismos, autêntico e assertivo, não precisei de muito tempo para me aperceber de que cepa é feito. Um privilégio, mais um, que o Benfica me proporcionou.

Recentemente, o João teve a gentileza de me oferecer um livro chamado "The first 90 days" (os primeiros 90 dias), sendo que após ler o livro, a primeira coisa que me veio à cabeça foi: o Rui Costa tem de ler este livro!

Bem sabendo que os 90 dias iniciais já passaram, creio que foram 227 desde que Rui Costa é Presidente eleito, a verdade é que os princípios fundamentais para uma mudança bem sucedida mantêm-se e, do que sei, a maioria encontra-se por atingir. Tudo isso com o risco e fragilidade inerentes à passagem do tempo sem que muitas dessas mudanças se tenham efetivado.

Dos 10 princípios fundamentais que o autor (Michael D. Watkins) destaca aquando do início de um cargo de liderança, destaco 3 que acredito essenciais em relação ao Benfica: assegurar vitória iniciais, constituir uma equipa própria e exigir mudanças e acelerar esse processo de transição a todos os subordinados.

Quanto às "early wins", importam sobretudo para criar credibilidade e "impulso". E se o Presidente Rui Costa teve algumas vitórias iniciais (e não falo de resultados desportivos), creio que não assegurou a mais decisiva e duradoura: a unidade interna e externa, que seria obtida com algumas medidas que, mais ou menos simbólicas e profundas, teriam por base a ideia de cortar com o passado recente.

Isso leva-nos ao ponto seguinte, precisamente a questão da criação da sua equipa de trabalho. O Presidente não criou verdadeiramente a "sua" equipa, herdando a maioria de Vieira, acrescentando os indicados pelo movimento "Benfica Bem Maior", sobrando apenas Luís Mendes, esse sim, da sua equipa deste ponto de vista (o que se aplaude).

Quanto às mudanças e à aceleração do processo de transição a todos os que trabalham no Benfica (Clube e SAD), sei que o Presidente tem procurado fazê-lo. Contudo, parece estar pouco acompanhado nessa real vontade de mudança profunda, pelo que, dessa forma, dificilmente será possível atingir tal objectivo em tempo razoável numa máquina tão pesada (demasiado) como é o Benfica.

Será o Presidente Rui Costa um homem extraordinário? O tempo o dirá, sendo que, por ora, estou certo ser (pelo menos) um extraordinário benfiquista que quer o melhor para o Clube. Aliás, tenho uma ótima impressão da sua genuinidade e honestidade.

Por tudo isso, aproveito estas linhas para deixar lhe deixar uma ideia: leve para o Benfica pessoas extraordinárias! Daquelas com brilho próprio e onde o interesse do Benfica se sobrepõe à agenda pessoal e onde as politiquices ficam à porta. Não precisamos de autointituladas pessoas extraordinários qual Raskólnikov, onde essa (suposta) superioridade lhes permite tudo, mas sim de pessoas naturalmente extraordinárias.

O Benfica precisa desse brilho e aura, e não ficar refém de uma máquina trituradora. Só assim poderá obter uma estabilidade que permita planear a médio/longo prazo e não preocupados com eleições ou tomadas da bastilha em jogos palacianos que não são dignos da história do Benfica.

Ainda ontem o Presidente lançou a biografia de Eusébio onde contou a história de, quando em miúdo, num treino de captação, o Rei o viu e percebeu num ápice o brilho daquele menino. O Pantera Negra reconheceu que o miúdo era extraordinário e tinha razão. Decidiu e fez a sua escolha. Como se comprovou, mais que acertada. Simples.

Cerca de 40 anos volvidos, a responsabilidade das escolhas é do agora Presidente Rui Costa. Está na altura das decisões difíceis de reconhecer quem é, ou não, extraordinário nos diversos cargos, postos ou posições e fazer as escolhas que o Benfica precisa.

Tudo no superior interesse do Benfica, pois se assim não for, temo que corra o risco de ser tomado por "raskólnikovs". E, acima de qualquer pessoa, o Benfica terá de ser sempre um Clube extraordinário.
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