Gustavo Silva
Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

Anfield no limite e sem limites

Quando a 3 de Março de 2006, juntamente com dois amigos, apanhei comboio com destino ao Porto, desconhecia que embarcava na viagem mais marcante da minha vida.

O destino final era Liverpool e conduzia-nos a incontrolável vontade de ver o Benfica em Anfield Road, uma meca para qualquer adepto de futebol. Eram os oitavos de final da Champions, "apenas" contra o campeão da europa em título.

À distância destes 16 anos, 5 dias de antecedência (o jogo foi a 8 de Março) parecem muito para a tarefa, não fosse o facto de termos partido sem bilhetes para o jogo e sem sítio para dormir. O plano era simples: resolver tudo quando chegássemos a Liverpool, mesmo que a chegada fosse pelas 23h00. Em suma, uma loucura.

Quis o destino começar a sorrir-nos ainda no aeroporto Sá Carneiro, antes do embarque para Liverpool. Uma senhora perdida do marido, a precisar de ajuda, foi o mote para a criação de uma ligação especial com a Wendy e o Stephen, um casal que para além de nos ter feito um "roteiro" de Liverpool (como evoluiu o acesso aos dados desde então), acabou por nos dar boleia para a cidade.

Daí a terem-nos convidado a ficar em casa deles durante a nossa estada foi um passo natural. Agradecendo a hospitalidade dessa noite, acabámos por encontrar um hotel simpático no dia seguinte e dedicar-nos a tentar obter bilhetes.

Com a manhã veio a constatação do óbvio: bilhetes esgotados há meses. Alternativa? Percorrer a cidade em busca de quem nos vendesse os ingressos (e como andámos e procurámos) e a romaria diária até ao estádio, na esperança de que a sorte nos continuasse a guiar.

Começou aí a nascer uma amizade com o "gateman" (o guarda do portão de Anfield) e um respeito mútuo com o chefe de segurança de Anfield, convergindo tudo para que no dia do jogo, ainda sem bilhetes e em puro "stress", proporcionassem a oportunidade de chegar à fala com aquele que era, segundo eles, "a única pessoa do Clube que podia resolver o nosso problema". Bryce Morrisson de seu nome, penso que secretário-geral do Liverpool à data, que me recebeu com uma arrogância que ainda hoje me faz sorrir e confirmando os avisos dos nossos interlocutores.

Quando saí do gabinete com os ingressos no bolso, após uma conversa de almanaque não recomendável para este espaço, a reação de quem me esperava (os amigos da viagem e os novos de Liverpool) foi de pura alegria numa "roda de abraços" que espantava quem ali passava. Porque acima da rivalidade, surgiu o respeito de uma paixão saudável pelo jogo.

Daí ao The Arkles, um pub em "Anfield Road" de onde só saímos para entrar no estádio, foi caminhar nas nuvens. No pub, partilhar histórias, emoções e sorridos durante sete horas naquele mesmo local (até atrás do bar), foi o corolário para uma aventura de quem nunca desistiu, mesmo perante a escassa probabilidade de conseguir ver o jogo no estádio. Uma apoteose de quem sente o dever cumprido, depois de tantos obstáculos.

No estádio, o golo sublime do Simão só podia ser ultrapassado pelo golo do Piccoli Miccoli, que bem à nossa frente nos fez atingir um estado de quase levitação … Como que a dançar por cima dos nossos adeptos… Uma alegria que só quem ali estava sabe a que me refiro. A ovação que os adeptos do Liverpool prestaram à nossa equipa, após terem cantado o "You Will Never Walk Alone" fica gravada na memória como uma das mais belas histórias de orgulho benfiquista.

Meses depois, um dos meus parceiros de viagem morreu. "Apenas" o meu melhor amigo de infância, ironicamente jornalista do Record, André Romeiras de seu nome, o ser humano que conheci com mais capacidade para gerar empatia nas pessoas. E que legado deixou…

Quando voltei a Liverpool (para ver o Benfica contra o Everton, em 2009), fui a Anfield visitar os amigos e agradecer o momento mágico ali vivido. Descobri que o gateman e o chefe de segurança estavam reformados e que Bryce Morrisson tinha morrido repentinamente. Fui também ao pub e estava a decorrer um velório de alguém, mas depois de dizer ao que íamos, fomos gentilmente convidados a comer e beber.

Apesar do embate, e a vida teve de continuar, cá como em Liverpool, recordo que quase todos nos chamaram de loucos por ir com tamanha fé. A maioria disse-nos ser ainda mais difícil conseguirmos ver o jogo no estádio do que o Benfica vencer a partida.

Existe algo que se mantém vivo e actual: não desistimos, fomos dedicados e premiados por isso. Sorte? Sim, mas fizemos por merecê-la. Tal como o fez a equipa em campo em 2006, que mesmo sem talento por aí além (com honrosas exceções), teve rigor e muita dedicação ao jogo, sendo também premiada por ter acreditado e deixado tudo em campo.

Aos jogadores do Benfica que entrarem Quarta-feira em campo, desejo que honrem quem tanto sacrifica (e sacrificou) de forma natural para os apoiar e dar-lhes todas as condições para deixarem as pessoas felizes. E que acreditem que é mesmo possível e que depende sobretudo deles mesmos.

Creio que os jogadores do Benfica (e não só) estão algo desfasados do esforço que muitos fazem para que nada lhes falte. Falta-lhes sentir os adeptos, perceberem que para quem enverga o manto e representa o Benfica não é aceitável menos do que fazerem tudo o que puderem. Tudo até ao limite!

Os adeptos querem resultados, mas exigem que não deixem nada por fazer. Uma entrega no limite e uma crença sem limites é o que precisamos desde logo no terreno de Anfield.

Como dizia o André: não tenhas medo de ser feliz!

Porque no Benfica, dentro ou fora de campo, não vencer nunca pode ser encarado ou aceite como algo natural.
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