Gustavo Silva
Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

Darwin e uma teoria de evolução

A venda de Darwin (Nuñez) é um excelente negócio para o Benfica. Ponderar não vender um jogador (seja ele quem for), nesta altura de incerteza global, por cerca de 100 milhões de euros, seria uma irresponsabilidade e um amadorismo. Simples. Sem meias palavras. Tudo isto sem trazermos sequer à equação a vontade do jogador ou o passado clínico ao nível do joelho.

Amar o Benfica não pode fazer-nos esquecer o ecossistema pouco atrativo em que estamos inseridos, num campeonato pródigo em situações que comprovam a tacanhez e falta de perspetiva coletiva de muitos dos intervenientes.

Esta realidade, à qual que podemos juntar as limitações financeiras de país periférico com estádios muitas vezes despidos de público, são cartões de visita que pouco impressionam na atração e/ou retenção de talentos de classe internacional inequívoca, sejam eles formados no Seixal (no caso do Benfica) ou diamantes "colhidos fora" ainda um pouco em bruto, e aqui "polidos" até atingirem esse nível.

Posto isto, é possível Darwin pensar ficar? Tendo a oportunidade de jogar no melhor campeonato do mundo, ganhar cerca de 650 mil euros/mês num clube também fantástico e com um estádio mítico? Entendo a importância da gratidão (e defendo-a) pelo Benfica, mas há que manter algum elementar bom senso.

É evidente que todos queríamos que o Darwin ficasse, mas sabemos não ser possível. Todos queremos manter os bons jogadores, até porque os jogadores "menos bons" não despertam grande interesse.

Em relação ao problema de reter o talento no Benfica (e em Portugal), não existe uma solução fácil, sendo as vendas dos jogadores uma condição de sustentabilidade de qualquer clube nacional na realidade atual.

A este propósito, confesso que gostaria que o Benfica tivesse proposto a Rúben Dias um contrato "vitalício" (não sendo possível tantos anos de contrato, ficava assumido), em que lhe fosse dito: "queremos que sejas o capitão do Benfica durante os próximos 10 anos. Terás sempre uma cláusula de igualdade com o salário mais alto do plantel. Aceitas? Ficar a tua carreira toda a envergar o manto sagrado e a capitanear o Glorioso? E quando terminares a carreira, ficas no Benfica noutras funções?"

Infelizmente, desconfio que nem Rúben Dias seria capaz de aceitar tal repto, tendo uma proposta do Manchester City. E não é "apenas" por dinheiro. A Premier League é o que todos sabemos. Ao invés, a nossa liga, no mínimo, vai colecionando equívocos.

Contudo, voltando ao Rúben, por considerar um "jogador à Benfica", queria acreditar que pudesse dizer "sim". Não por qualquer razão lógica, mas pelo Benfiquismo e mística que não se explica, apenas se sente.

Nesse aspeto o Benfica é um Clube único. Os sócios e adeptos têm uma abnegação e paixão que não conhece limites. E é esse amor (como qualquer amor, também exigente) que tem mesmo de ser passado e estar presente em todos os momentos de Benfica: Seixal, Estádio, estágios, em Portugal ou no estrangeiro, treinos, refeições ou qualquer outra situação.

Tendo isso assente, e do que transparece, parece existir ainda algum afastamento concreto entre esta paixão dos adeptos e o coração do Clube/SAD.

O Benfica precisa reforçar a passagem desta cultura de valores históricos do Clube, tais como a abnegação, a humildade e uma inquietação/agressividade de quem não se contenta e ousa sonhar mais, numa vontade de se superar e sempre com aquele orgulho muito nosso.

A este propósito, destaco assim três áreas onde aparenta ser necessário esse reforço: SAD, Seixal e equipa de futebol.

Na SAD, o sócio/adepto do Benfica não é um cliente e a mentalidade empresarial/corporativa existente (e necessária) tem de ser obrigatoriamente acompanhada por quem entenda esta paixão, sob pena de equívocos que não só afastam os sócios, como desperdiçam relevantes fontes de receitas. Até ver, não existe símbolo de "paixão benfiquista" nas fórmulas de "excel", variável essencial para decidir melhor no Benfica.

No Seixal, faltará a presença de mais antigos jogadores. Daqueles com peso e à Benfica. Nada contra o trabalho científico (com resultados fantásticos em alguns escalões), mas existem sentimentos, experiências e "ratice" das velhas glórias que podem complementar a formação e o treino já existente, reforçando também os laços dos jogadores e o tal "amor" pelo Clube.

Quanto à equipa de futebol, o profissionalismo (inevitável) potencia, contudo, um maior afastamento dos jogadores do "mundo real", fazendo-os perder - em parte - essa noção de Benfica, como que remetidos a uma "redoma" e, assim, parcialmente alheados da responsabilidade (mas sobretudo privilégio) de ter milhões de apaixonados aos ombros. Penso que falta a esta equipa sentir no balneário, exemplos reais e inequívocos de amor pelo Benfica. Para que sintam a importância de envergar o manto sagrado e vencer pelo Benfica.

Em suma, após a venda de Darwin, nada melhor que aproveitar o momento para evocar a teoria da evolução de outro Darwin (Charles), quando há mais de 150 anos, concluiu que é o ambiente, através da seleção natural, que determina a importância da característica do indivíduo, com os mais bem adaptados a terem mais chances de sobreviver e prosperar.

Perante isto, é então essencial que o Benfica se adapte e proporcione um ambiente que permita aos jogadores (mas não só) desenvolver as suas características em prol do Benfica. E isso faz-se com qualidade, mas inevitavelmente potencia-se com mística e amor pelo Benfica.

Quem sabe tal possa ser o início da inversão do paradigma das vendas atualmente inevitáveis…

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