Gustavo Silva
Gustavo Silva Advogado, sócio 19.799 do Benfica

Este Clube não é para fracos

Ao fazer o trajeto de regresso de Leiria, já noite dentro, após um óptimo jantar num mar de Benfica (a melhor parte da viagem), muitas ideias e sentimentos me cruzaram a mente. Desde a paupérrima exibição da equipa ao conforto de adepto da missão cumprida pela passagem à final da competição, não é fácil saber o que pensar ou sentir enquanto Benfiquista.

O que comprovei nas bancadas foram os adeptos do Benfica a tentar apoiar a equipa e à espera de motivos para aplaudir ou entusiasmar-se com a exibição. Esperançosos que desta é que a equipa ia jogar "à Benfica".

Mas, quase nada houve em retorno que o justificasse. O que se viu foram jogadores lentos, receosos, amorfos, desligados um dos outros e com uma evidente falta de querer vencer o jogo mais do que o adversário.

Olho para a equipa e vejo instalada uma enorme falta de confiança, com medo de decidir, a jogar para o lado, sem progressão, com jogadores a esconderem-se do jogo. Uma equipa pouco ambiciosa e que na maior parte do tempo parece que se limita a desempenhar a sua profissão de forma aburguesada.

Salvo raras exceções, parece que os jogadores não se apercebem (nem alguém lhes explica) o privilégio de terem a honra de envergar o manto sagrado. Soubessem eles da importância de constar na história do Benfica e certamente teriam as camisolas mais pesadas (pelo suor e pela sujidade da relva, pelo menos).

E, sinceramente, dei por mim a pensar que esta imagem da equipa poderá ser um espelho e refletir a mentalidade que parece instalada em geral no Benfica: decisões onde o foco parece ser o de jogar pelo seguro, sem iniciativa, sem rompimentos (mormente com o passado e os conformados), sem inspirações, a fugir da decisão difícil, parecendo que reina o receio de confrontar adversários.

Quem representa o Benfica, dentro e fora de campo, não pode decidir assim. No Benfica não pode instalar-se a mentalidade do medo, do jogar pelo seguro ou fugir à responsabilidade que daí resulta. Quando isso sucede, rapidamente começará a surgir a ideia confortável de que ganhar ou não ganhar é secundário perante a segurança de não arriscar.

E isto é inaceitável. Quem tem medo de decidir ou só joga pelo seguro, não pode estar no Benfica. Esta ideia serve para jogadores, treinadores ou dirigentes nas suas atividades e responsabilidades. No Benfica não pode reinar o medo dos desafios. O Benfica não foi construído por gente fraca ou receosa.

No Benfica, vencer ou não vencer não pode ser a mesma coisa. No Benfica, não fazer tudo para vencer não é aceitável. No Benfica, não ter capacidade para criar coisas novas e de qualidade significa que é tempo de procurar novas paragens. No Benfica, há que assumir responsabilidades e dar o melhor de si, superar-se perante desafios.

Depois de tudo o que sucedeu recentemente, era (e é) evidente que o Benfica precisa de uma reforma. Sem dramas, sem sangue e sem crises. De forma natural. Claro que como qualquer reforma, precisa de decisões corajosas, disruptivas e com profundas alterações com o que existe, os denominados poderes instalados.

Rui Costa foi o presidente eleito com mais votos na história do Benfica. Isso conferiu-lhe um salvo conduto para reformar, mudar e fazer um caminho novo de volta aos pergaminhos do Clube conforme bem decidisse. Contudo, entendeu que essa reforma deveria ser feita progressivamente (diria lentamente), com poucas alterações e mantendo grande parte do que herdou da anterior direção.

O que se assiste, meses depois, é a constatação que muito há ainda para fazer e mudar. Olhamos para as modalidades, para o marketing, para a comunicação ou para o futebol e (tirando a saída "imposta" de Jesus) pouco ou nada mudou em termos estruturais. Não mudaram as pessoas, não mudaram as ideias e a forma de decidir, nem mudaram os resultados.

Realço que reformar não é mudar tudo. Não é estragar o que está bem feito. E há muita coisa bem feita no Benfica. Muita mesmo. E há também bastante gente boa e com valor, gente "à Benfica". Tudo isso deve ser mantido e reforçado, se possível. Com tranquilidade e com um diagnóstico objetivo. Com foco na comprovada competência, nos resultados e objetivos atingidos.

Não obstante, penso que no geral, o Benfica continua a ser em parte, uma cópia suave do Benfica anterior, e, por isso, urge mudar e criar um Benfica com uma nova identidade e de cores mais garridas.

Importa recuperar aquele Benfica temerário conhecido por ter uma garra e determinação que vejo em grande parte dos adeptos benfiquistas, mas que não vejo instalada no Clube (salvo honrosas exceções).

Para isso, há que romper de forma considerável com o passado e o presente. Sem medo, sem hesitações ou fraquezas, guiados pela determinação de se estar a fazer o melhor para o Benfica. E o Benfica precisa de mudar, precisa de sangue novo, capaz, competente e com novas ideias e horizontes. Dentro e fora de campo.

Doa a quem doer, o interesse maior tem de ser o do Benfica. Sempre. Isso poderá implicar decisões difíceis, que se complicam ainda mais com a existência de laços profissionais e afetivos que naturalmente se criam com quem serviu e/ou serve o SLB. Mas importa que esses laços não se tornem numa fonte de fraqueza e impeçam o Benfica de prosperar. E esse objectivo está acima de tudo e de todos. Lealdade às pessoas, mas ainda mais ao interesse do Benfica.

Perante isto, deixo votos de firme determinação e confiança a Rui Costa, acreditando na sua vontade em mudar o Benfica para melhor.

Bem sabendo que as mudanças levam o seu tempo, e acreditando que parte do foco deve começar pela formação, há que começar já a preparar o presente e futuro.

Assim sendo, em jeito de desafio e desejo, deixo a ideia de que sábado é um belo dia para marcar esta mudança de ciclo, vencendo a taça da liga "à Benfica". Que estejamos todos lá com vontade e união, com a tal mística!

Em suma, resumo dizendo que depois de os irmãos Cohen terem mostrado ao mundo que "este país não é para velhos", é altura de lembrar que este Clube não é para fracos.
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