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Manuel Boto
Manuel Boto

Reflexões sobre um falhanço desportivo

Agora que a época desportiva (refiro-me ao "futebol profissional masculino") terminou, é altura de fazer um balanço desportivo dos insucessos e refletir um pouco sobre as causas, constatando factos para ajudar a construir o futuro.

Para todos os benfiquistas, sem exceção, a época foi um desastre. Para uns, mais atentos a questões importantes como planeamento e estratégia, pode dizer-se que foi anunciado. Para outros, talvez a maioria, um desastre em que os árbitros e o Covid tiveram importância capital.

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Como soi dizer-se, no meio está a virtude e eu abraço todas as causas. Já o disse e escrevi que o planeamento da equipa foi feito a pensar em eleições e isso consubstanciou-se num investimento tão vultuoso (Eur 100 M) quanto anárquico (por terem ficado por preencher funções chaves da equipa). Sobre o treinador, regressos para repetir sucessos raramente têm o êxito esperado e isso tem muito a ver com ambição versus cansaço psicológico.

Sobre os árbitros, a verdade é que uns penaltis não marcados vieram desviar o foco de pálidas exibições, sobretudo contra equipas mais fracas, onde as desculpas da arbitragem e seus erros foram super convenientes. Sobre o Covid, foi quase um plantel inteiro e indiscutivelmente fez mossa na altura do ano que sucedeu, mas quando aí chegámos já estávamos fora da Champions e tínhamos dito adeus a dezenas de milhões de euros e não estávamos, longe disso, em primeiro lugar na classificação.

O Verão de 2020 foi frenético. Avião para lá e avião para cá, assim andaram a passear Cavani e Jesus. Todos ansiados ou pretensamente ansiados, encheram páginas de jornais, parecendo novelas mexicanas. Não veio Cavani, veio um miúdo Darwin, ao estilo de não sai a sorte grande, mas temos a terminação – ainda por cima uruguaio também. Custou Eur 24 M mas depois de uma época frustrante e com problemas no joelho, já andamos a tentar vender a potenciais interessados pelo dobro do que custou.

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Este é o paradigma da equipa atual e dos seus dirigentes: negócio! Pelo meio, comissões e mais comissões. Dizem ser uma realidade mas eu prefiro chamar de fatalidade, tantos os milhões gerados sem sucesso desportivo. Era aqui que eu queria chegar: qual a predominância dos sucessos desportivos na estratégia do Benfica atual? Não basta dizer que queremos um Benfica europeu e com a hegemonia nacional. Ou temos uma "praxis" coerente ou continuaremos a ouvir cantilenas sobre árbitros e penalties, Covid ou outro qualquer "azar" a desculpar tanta aselhice coletiva dos nossos dirigentes.

Aqui chegados, a pergunta a fazer é esta: tem condições esta Direção/Administração da SAD para fazer diferente? A resposta é muito simples: claro que tem, até porque eleita há 7 meses recebeu um mandato de 4 anos. Então impõe-se nova pergunta: saberão o que fazer para fazer diferente? Aqui a resposta é simples: não, como um todo, claramente influenciado por LFV. Individualmente até acredito que sim, mas o coletivo enquanto tal não funciona, não discute, aceita tal influência decisiva.

Perguntam os Sócios (porque os acionistas nem existem dada a percentagem maioritária do Clube na SAD): e Jesus continua? Secundário, neste contexto. Treinador caro para tempos de "vacas magras" e por tantos, sobretudo conhecedores da metodologia de treino, considerado como ultrapassado pelas evidências que as lacunas do coletivo da equipa demonstram, tem margem de manobra reduzida pela escassez financeira que se avizinha (ver anúncio de novo empréstimo obrigacionista a corroborar as certezas de novos tempos). Mudar o treinador poderia ajudar a melhorar ou pelo menos trazer novas ambições, mas enquanto o negócio for o paradigma de referência, nestes tempos que hoje são diferentes, pouco poderemos esperar.

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Como falar (escrever) é fácil e mais difícil é fazer, aqui venho dizer que durante anos tenho feito, diretamente ou indiretamente às Direções, sugestões para construir um melhor Benfica, com outros paradigmas e referências, mais adequados aos valores que entendo deverem ser os do meu Clube. Nas últimas eleições alinhei com RGS por considerar estar desalinhado de interesses conflituantes com o Benfica e cada vez mais acredito ter tido razão antes de tempo – tão mau como não ter razão.

Mas temos TODOS obrigação de pensar o futuro e um Sócio como eu, com quase 58 anos de associado e já com algum passado no Clube, responsabilidades acrescidas. Não as enjeito e anseio por novas equipas de gestão, com novas ideias e dinâmicas, livres de influências cerceadoras de uma liderança desportiva que todos desejamos para um Benfica hegemónico em Portugal e com presença sistemática e gloriosa na Europa.

Manuel Boto

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Sócio nº 2794

Por Manuel Boto
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