Manuel Boto
Manuel Boto

Precisa-se: um Benfica de têmpera!

De vez em quando tenho privilégio de almoçar com benfiquistas que sofrem o Clube/SAD tanto ou mais do que eu, vivendo apaixonadamente os sucessos e os (recentes e sucessivos) insucessos, discutindo razões e dirimindo argumentos explicativos da atual situação a que chegámos, em que nos vemos a "esfregar as mãos" com a perspetiva de uma época diferente, por outras palavras… de sucessos!

Curiosamente, noto o ceticismo da chegada de um novo treinador, estrangeiro, disciplinador, com uma mentalidade diferente. As críticas vão-se ouvindo em surdina, sempre a preparar "as facas" para o dia seguinte, se infelizmente correr mal: "não conhece o futebol português, não conhece as equipas nacionais", como se a valia do futebol nacional fosse de uma categoria ímpar no futebol mundial. Em todas as discussões vou defendendo que o encetar de novos projetos começa exatamente pela mudança de mentalidades e que, na minha opinião, é tempo de mudar de paradigma, pelo que a escolha de um novo treinador se insere exatamente nestas novas opções.

Onde esses benfiquistas me conseguem embatucar, é mesmo na necessidade da mudança da estrutura. Referem, com indiscutível razão, que sendo a estrutura basicamente a mesma, mudando apenas uns rostos, como a promoção de Lourenço Coelho que estava "na prateleira", bem pode mudar o treinador que depois a estrutura não o acompanha. Se calhar, têm razão objetiva e, se não for possível uma profunda alteração até porque estamos a começar a época, no mínimo, algo mais deveria ter sido mudado.

Por exemplo, a continuidade de Rui Pedro Braz (RPB) é incompreensível (e não discuto a pessoa que nem a conheço). Apenas o cargo que lhe é atribuído, em que não se percebe se complementa Lourenço Coelho ou atua de forma independente. É, contudo, inquestionável que não faz parte da Comissão Executiva da SAD. Se assim é, porque bulas terá sido ele o escolhido para andar a fazer contratações, ao invés de ser alguém que dela faça parte? Este delegar de responsabilidades faz sentido?

Além disso, esta ida de RPB a Buenos Aires para adquirir Enzo Fernandez suscita uma questão elementar: como é possível que tendo recaído a opção do Benfica na aquisição deste jogador, porque alguém acredita que possa trazer uma mais-valia à qualidade do futebol jogado, fiquemos à espera que ele jogue a Libertadores? Se formos eliminados do acesso à Champions e/ou se o início do campeonato for titubeante, a pergunta seguinte é mais do que pertinente: que sucederia se ele aqui estivesse? Ou ainda: se chegar a seguir ao Mundial, quase de certeza que virá sem férias, autenticamente "de gatas". Quanto tempo será preciso para se adaptar? Resumindo: se foi mesmo adquirido o seu passe, já devia estar no avião para Lisboa.

Voltemos à estrutura – será capaz de responder aos desafios que um treinador exigente e de mentalidade diferente irá colocar no dia-a-dia? Gostaria de responder inequivocamente que sim, mas tenho fundamentadas dúvidas pelas características de quem compõe a Comissão Executiva… Vou ser claro: a única pessoa com "track record" para acompanhar um treinador que vem de um futebol com outro nível de organização é Domingos Soares de Oliveira (DSO) – porque "fala a mesma linguagem" (se alguém tiver dúvidas, é constatar o nível da atual organização interna do SLB e isso tem um nome: DSO).

Tendo este Benfica, no papel, 2 (dois) CEO, como é do conhecimento público – Rui Costa (a fazer um percurso de mudança e aprendizagem) e DSO, veremos como se processará no futuro o equilíbrio entre ambos. No entanto, é inequívoco, para mim, que RC seria mais Presidente, se deixasse DSO liderar literalmente a SAD. Obviamente que, para tal, algumas das suas atuais funções teriam de ser delegadas, sempre com um pensamento estratégico de futuro, quiçá para um CFO a recrutar.

Estou perfeitamente ciente dos engulhos que DSO causa no Benfica, até porque fui o único a votar "contra" a sua entrada na Administração da SAD, numa Assembleia Geral que se realizou há muitos anos e apenas porque, reconhecendo a sua competência, sabia ser adepto do Sporting, conforme expressei "alto e bom som". Mas já passaram tantos anos, durante os quais demonstrou a sua competência profissional, que até acho que já se entronizou benfiquista e, depois de 2 eleições em 2020 e 2021, precisamos de parar com guerras internas que só nos enfraquecem e divertem os nossos rivais e… seguir em frente.

Ainda mais uns temas que gostaria de referir: a necessidade de se devolver ao futebol profissional o nível de exigência que já foi apanágio do Clube, em que os jogadores, quando perdiam ou sequer empatavam, o ambiente na cabina era literalmente de "funeral". Atualmente, a impressão que colhemos para quem está de fora como eu, é que "encolhem os ombros e siga para outro jogo". O Benfica tinha "artistas a solo na orquestra do futebol", mas também tocadores de tambor, alguns mesmo "carregadores de piano", sendo esta mescla liderada, dentro da cabina, por jogadores com "mau feitio", os tais para quem ganhar é a única opção, sem condescendência para os que fingiam que corriam, no fundo "se encostavam"... Assim se constrói a mística, com vitórias que saem do balneário e levam as bancadas ao rubro.

Por fim, é tempo de acabar com a mania da perseguição, do permanente "chorar" sobre as arbitragens de que somos alvo e/ou dos organismos da Liga e FPF. Que tal, ter melhor plantel, jogar e correr mais do que os outros? Ou acham mesmo que para o Benfica que todos ansiamos, o não ganhar ao Nacional, Paços de Ferreira ou Marítimo por causa de um off-side ou de um penalti em que o árbitro erra, é suficiente desculpa? Eu não me revejo neste carpir próprio de um conjunto de desculpas que mais não são do que confissões de falta de categoria, de que realmente temos um Benfica menor e de pouca exigência.

Começaram os treinos e daqui a cerca de 1 mês é a doer, em jogos que podem marcar completamente a época. Há 36 jogadores no plantel, um emagrecimento para fazer, no fundo, tarefas elementares cujo atraso nas decisões pode minar o balneário. Veremos as decisões que Schmidt vai tomar e veremos a capacidade da organização em "despachar" os excedentários. Este o primeiro desafio que se coloca no imediato. Os outros desafios, como contratar jogadores que fazem falta, sobretudo com perfil para jogar num Benfica de máxima exigência e "cara feia", virão a seguir, mas tão essenciais para um Benfica de têmpera que nos permita fazer renascer a mística que nos conduzirá às vitórias.

Manuel Boto, Sócio 2794

 
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